Numa viagem imaginária ao ano de 2075, o artista angolano constrói um discurso entre a ficção futurista e a consciência histórica, colocando a arte no centro da identidade nacional, da economia criativa e da preservação do património colectivo.
Crónica e Reflexão Social e Artística | PRESSdigi.ao
Por Domingos Menezes | MUSSUNDA NZOMBO
Há discursos que informam. Outros celebram. E existem aqueles que, através da arte, nos obrigam a olhar para o presente como se já fosse passado, para compreender o que estamos a construir — ou a deixar por construir — para as gerações futuras.
Na sua performance em torno do Prémio ENSA-Arte 2026, o artista angolano Mussunda Nzombo assume uma personagem projectada no ano de 2075, apresentando-se como presidente do Conselho de Administração da ENSA num futuro imaginado. A partir desse lugar ficcional, revisita a história da instituição, homenageia artistas e gestores e propõe uma reflexão sobre o papel da cultura na construção de Angola.
Mais do que uma representação do futuro, a performance transforma-se num exercício de memória, crítica social e imaginação política. O seu ponto de partida é uma pergunta essencial: que país estaremos a celebrar daqui a cinquenta anos, se não cuidarmos hoje dos artistas, das suas obras e da memória cultural que nos identifica?
A arte não é luxo: é uma necessidade estratégica
Um dos eixos centrais do discurso de Mussunda Nzombo é a defesa da cultura como elemento indispensável à construção nacional. Na sua narrativa, o futuro de Angola não se mede apenas pela dimensão das infra-estruturas, pelas estradas, barragens, edifícios ou sistemas de transporte. Mede-se também pela capacidade de preservar a memória, reconhecer os criadores e imaginar novas possibilidades de existência colectiva.
Esta perspectiva confronta uma concepção frequentemente limitada do desenvolvimento, na qual a cultura é vista como complemento das políticas públicas, uma actividade acessória ou uma despesa que pode ser adiada.
A performance propõe outra leitura: a arte é uma forma de conhecimento, um instrumento de consciência social e uma dimensão estratégica da economia. É através dela que uma sociedade interpreta as suas contradições, transmite valores, questiona as suas certezas e produz representações de si própria.
Quando um artista transforma o palco numa reunião institucional situada em 2075, não está apenas a contar uma história. Está a convidar o público a avaliar o presente a partir das promessas que gostaria de ver cumpridas no futuro.
O futuro como espelho do presente
A escolha do ano de 2075 não é meramente decorativa. Ao situar o discurso num tempo distante, Mussunda Nzombo cria uma distância simbólica que lhe permite revisitar decisões, figuras e processos históricos com a liberdade própria da ficção.
Nesse cenário, a ENSA surge como uma instituição que ultrapassou os limites tradicionais da sua actividade e consolidou uma visão de longo prazo, valorizando a arte, a inovação e a preservação do património cultural.
As referências a museus imersivos, arquivos holográficos, arte digital, inteligência artificial criativa e plataformas de memória colectiva ampliam a dimensão futurista da narrativa. Contudo, o próprio discurso estabelece uma hierarquia importante: a tecnologia pode transformar os meios de criação, conservação e acesso às obras, mas não substitui o ser humano, o artista nem a imaginação.
Esta é uma das mensagens mais relevantes da performance. O futuro tecnológico só terá verdadeiro significado social se continuar ao serviço da criatividade, da dignidade humana e da democratização do conhecimento.
A inovação, por si só, não garante progresso cultural. É necessário que os seus benefícios sejam acompanhados por políticas de preservação, acesso público, educação artística e reconhecimento dos criadores.
Prémio ENSA-Arte: entre a criação, o reconhecimento e a memória
Ao revisitar simbolicamente a história do Prémio ENSA-Arte, a performance atribui à iniciativa um papel que ultrapassa a distinção individual dos artistas. O prémio é apresentado como um mecanismo de reconhecimento de visões, inquietações, narrativas e possibilidades de futuro.
A evocação de diferentes responsáveis institucionais, curadores, técnicos e artistas procura sublinhar que a construção de um património artístico não resulta de uma única geração nem da acção isolada de uma personalidade. É um processo colectivo, sustentado por criadores, organizações, profissionais e instituições que, em diferentes momentos, tornam possível a continuidade cultural.
Entre os artistas homenageados no discurso figuram Mayomona Zua, Paulo Mayoka, Troca Troca, Mussunda Nzombo, Wilson Belas, Landu Yetu, Antropó e Aurélio Nivas.
A referência a estes nomes reforça a ideia de que as obras produzidas no presente podem vir a constituir documentos fundamentais para a compreensão do futuro. Uma criação artística não regista apenas o seu tempo: pode antecipar debates, revelar tensões sociais e conservar sensibilidades que, décadas depois, ajudarão a compreender uma época.
É neste sentido que a performance propõe olhar para os artistas como pessoas que, através da criação, conseguem imaginar realidades ainda não concretizadas.
A performance como disciplina artística e linguagem de pensamento
Um dos momentos mais significativos do discurso é a valorização da performance enquanto disciplina artística, com referência ao papel atribuído ao ENSA-Arte na sua validação e reconhecimento em Angola.
A performance ocupa um espaço particular no universo das artes contemporâneas porque pode articular corpo, palavra, gesto, som, imagem, objectos, espaço e participação do público. Não depende exclusivamente de uma obra material exposta numa galeria: o próprio acto artístico pode constituir a obra, produzindo uma experiência que se desenrola no tempo e perante os espectadores.
No trabalho de Mussunda Nzombo, o corpo do artista torna-se instrumento de representação institucional, memória histórica e comentário social. A personagem ficcional de 2075 permite-lhe transitar entre o humor, a solenidade, a homenagem e a provocação, questionando as fronteiras entre arte e discurso público.
A ironia presente na referência à própria morte imaginada — acompanhada pelo riso — quebra a formalidade do pronunciamento e recorda que a performance também pode utilizar o absurdo e o humor para aproximar o público de assuntos sérios.
A morte, nesse contexto, não funciona apenas como desfecho cómico. Introduz uma reflexão sobre a passagem do tempo, a finitude dos indivíduos e a permanência possível das suas obras.
Se as pessoas partem, o que fica? Que instituições conservam os seus contributos? E quem assegura que os artistas de hoje não sejam esquecidos pelas gerações de amanhã?
O património artístico não pode depender apenas da memória individual
Na narrativa de 2075, a Fundação ENSA é apresentada como responsável por um vasto acervo artístico-cultural e museológico, composto por pinturas, fotografia, performances, cinema, arte digital, moda, literatura, arquivos sonoros e património imaterial.
Esta imagem futurista aponta para uma necessidade concreta do presente: a criação de sistemas consistentes de inventariação, documentação, conservação e acesso ao património artístico angolano.
A preservação cultural não se resume à guarda física das obras. Implica também identificar os seus autores, registar os contextos em que foram produzidas, documentar os processos criativos e garantir que as gerações futuras possam estudar e interpretar esses testemunhos.
No caso da performance, esta questão assume especial importância. Por se tratar frequentemente de uma expressão efémera, a sua memória pode depender de fotografias, vídeos, registos sonoros, testemunhos, textos críticos e documentação técnica.
Sem um trabalho sistemático de arquivo, parte significativa da história das artes corre o risco de desaparecer com os seus protagonistas.
A visão apresentada por Mussunda Nzombo convida, por isso, as instituições culturais, os artistas, os investigadores e os profissionais da comunicação a compreenderem os arquivos como infra-estruturas de memória, essenciais à continuidade da história artística nacional.
A economia criativa como política de desenvolvimento
Outro eixo central da performance é a defesa da economia criativa como componente efectiva do desenvolvimento económico de Angola.
O discurso imagina um país que, em 2075, já não é reconhecido apenas pelos recursos minerais, florestais, hídricos e marinhos, mas também pela capacidade de transformar criatividade, conhecimento e património em valor económico e cultural.
Esta projecção coloca uma questão actual: como converter o potencial artístico em oportunidades sustentáveis para os criadores e para a sociedade?
A resposta exige mais do que iniciativas pontuais de apoio à cultura. Pressupõe formação especializada, estruturas de produção, espaços de apresentação, redes de distribuição, protecção da propriedade intelectual, financiamento, investigação, circulação internacional e acesso a mercados.
A economia criativa não deve ser entendida apenas como uma forma de apoiar artistas. Pode também gerar emprego, desenvolver competências, dinamizar o turismo cultural, estimular o empreendedorismo e contribuir para a diversificação económica.
Todavia, esse potencial depende de condições concretas. Os criadores precisam de reconhecimento profissional, remuneração justa, acesso a oportunidades e mecanismos que permitam transformar o seu trabalho em actividade sustentável.
A visão futurista de Mussunda Nzombo ganha força precisamente quando nos leva a perguntar se as instituições de hoje estão a preparar as condições necessárias para que essa realidade se concretize.
A memória institucional e o reconhecimento dos que construíram o caminho
Ao mencionar diferentes responsáveis ligados à trajectória da ENSA, o artista introduz uma dimensão de continuidade institucional. O futuro imaginado não aparece do nada: resulta de decisões, reformas, lideranças e contributos acumulados ao longo de décadas.
O discurso evoca Manuel Gonçalves, Carlos Duarte, Helena Francisco Chicuba e Mário João Mota Lemos, atribuindo-lhes papéis relevantes na história institucional e na transformação da empresa.
A homenagem procura reconhecer que as organizações são construídas por pessoas e que a sua evolução depende tanto da visão estratégica como da capacidade de preservar o conhecimento acumulado.
Ao mesmo tempo, esta dimensão da performance recorda que a memória institucional deve ser documentada e contextualizada. A evocação artística de figuras e acontecimentos pode despertar o interesse público pela história, mas a sua confirmação histórica depende de fontes, arquivos e registos verificáveis.
É precisamente nessa articulação entre imaginação e memória que a obra encontra uma oportunidade de diálogo: a ficção projecta possibilidades, enquanto a investigação histórica ajuda a compreender os caminhos efectivamente percorridos.
Os construtores invisíveis da nação
Talvez uma das passagens mais socialmente expressivas do discurso seja a referência a professores, poetas, roboteiros, kitandeiras, mecânicos, camponeses, zungueiras, fotógrafos, performers e sonhadores.
Ao colocar estas figuras lado a lado, Mussunda Nzombo amplia a ideia de construção nacional. O país não é obra exclusiva dos dirigentes políticos, militares, empresários ou engenheiros. É também resultado do trabalho quotidiano de pessoas cujos contributos nem sempre ocupam o centro das narrativas oficiais.
A enumeração valoriza profissões, saberes e experiências que sustentam a vida colectiva. Reconhece a criatividade presente nos ofícios, nos mercados, nas comunidades, nas salas de aula, nas oficinas e nos espaços artísticos.
A referência às kitandeiras e às zungueiras, em particular, evoca a participação de mulheres que desempenham um papel importante na economia informal e no abastecimento das comunidades. A menção aos camponeses e mecânicos lembra, por sua vez, a importância do conhecimento prático, da produção e da capacidade de resolver problemas concretos.
Esta leitura aproxima a arte da realidade social e afasta-a de uma visão restrita aos espaços formais de exposição. A criatividade não vive apenas nas galerias: também se manifesta nos modos de trabalhar, de comunicar, de organizar a vida e de encontrar soluções.
A SONA Tchokwé e a identidade cultural como património vivo
A referência à SONA, associada à tradição cultural Tchokwé, introduz no discurso a questão da identidade e da transmissão dos conhecimentos ancestrais.
As SONA constituem uma tradição de desenhos e configurações gráficas ligados a práticas de narração, pensamento e transmissão de saberes. A sua evocação no contexto de uma medalha de mérito imaginada para reconhecer artistas permite estabelecer uma ponte entre património ancestral e criação contemporânea.
O gesto simbólico sugere que o futuro não precisa de romper com as raízes para ser inovador. Pelo contrário, pode encontrar na memória cultural recursos para produzir novas linguagens, formas de reconhecimento e modos de representar a identidade nacional.
Importa, contudo, distinguir a homenagem artística da classificação patrimonial formal: qualquer afirmação sobre o estatuto internacional específico de uma tradição deve ser sustentada por documentação oficial.
A mensagem essencial permanece: a modernização cultural ganha profundidade quando reconhece as matrizes históricas e os conhecimentos que atravessaram gerações, sem os reduzir a elementos decorativos ou a símbolos desligados das comunidades que os preservam.
Uma crónica sobre aquilo que queremos deixar às próximas gerações
A força desta performance reside na forma como articula o humor, a imaginação futurista, a homenagem e a crítica social. Mussunda Nzombo não se limita a representar um dirigente de uma instituição no ano de 2075. Utiliza essa personagem para propor uma visão de país, questionando o lugar reservado à cultura nas prioridades do presente.
O discurso sugere que o desenvolvimento não deve ser avaliado apenas pelo que se constrói materialmente, mas também pelo que uma sociedade decide preservar, ensinar, reconhecer e transmitir.
Uma estrada liga territórios. Um museu aproxima gerações. Um arquivo conserva vozes. Uma obra de arte pode transformar a maneira como uma comunidade compreende a sua própria história.
Estas dimensões não se excluem. Complementam-se na construção de uma sociedade que procura crescer sem perder a memória de si própria.
A performance lembra-nos ainda que o futuro não é uma promessa automática. É uma responsabilidade colectiva, construída através das decisões tomadas hoje, dos recursos investidos, das instituições fortalecidas e das oportunidades concedidas aos criadores.
Nota conclusiva | A arte continua a ser o nosso melhor seguro para o futuro
Ao terminar com a afirmação de que “a arte continua a ser o nosso melhor e maior seguro para o futuro”, Mussunda Nzombo condensa a mensagem central da sua performance numa imagem que liga o universo institucional da ENSA à dimensão simbólica da criação artística.
O seguro, enquanto conceito, remete para a protecção perante riscos e incertezas. Na metáfora do artista, a arte protege algo que não pode ser reconstruído apenas com recursos materiais: a memória, a identidade, a imaginação e a capacidade de uma sociedade reconhecer a sua humanidade.
A verdadeira questão não é saber se Angola chegará a 2075 com mais tecnologia, edifícios ou instituições. É perceber se chegará a esse futuro com os seus artistas reconhecidos, as suas obras preservadas, as suas tradições respeitadas e a sua juventude preparada para criar novas possibilidades.
A visão apresentada por Mussunda Nzombo é ficcional, mas as responsabilidades que coloca diante do presente são reais. A arte pode antecipar futuros, mas cabe à sociedade criar as condições para que as melhores dessas visões deixem de ser apenas imaginação.
Porque um país que protege a sua arte protege também a liberdade de imaginar aquilo que ainda pode vir a ser.
Fonte principal: Discurso e performance de Mussunda Nzombo, na qualidade de personagem ficcional apresentada como PCA da ENSA em 2075, no contexto da celebração dos vencedores do Prémio ENSA-Arte 2026. Texto-base fornecido para elaboração desta crónica.
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