Mostra realizada no Instituto Guimarães Rosa prolongou o percurso artístico dos vencedores da XVIII edição do Prémio ENSA Arte, reunindo pintura, escultura, fotografia e performance numa celebração da diversidade e da vitalidade das artes visuais angolanas.
A primeira exposição colectiva que reuniu exclusivamente artistas vencedores da XVIII edição do Prémio ENSA Arte encerrou a 16 de Outubro de 2026, em Luanda, depois de dez dias de apresentação pública no Instituto Guimarães Rosa (IGR). A iniciativa constituiu um momento de continuidade criativa para os oito artistas participantes, que decidiram prolongar a investigação artística desenvolvida individualmente, transformando o reconhecimento alcançado no concurso numa experiência colectiva de criação contemporânea.
Mais do que uma retrospectiva dos trabalhos premiados, a exposição apresentou novas obras e linguagens, colocando em diálogo diferentes perspectivas sobre a realidade angolana e universal. Pintura, escultura, fotografia e performance integraram uma proposta que procurou afirmar a arte como processo, experimentação e relação entre criadores, obras e público.
Uma exposição colectiva marcada pela diversidade artística
Com curadoria de Miguel Gonçalves, a mostra reuniu Adriano Gaspar, conhecido artisticamente como Landa Yeto; Aurélio Nivas; Bernabé Alfredo, também identificado como Antro Pó o Excelente; Dionísio António, conhecido como Troca Troca; Domingos Miguel, artisticamente associado a Mussunda Nzombo; Maiomona Vua; Paulo Mayoka; e Wilson Oliveira.
A reunião destes oito criadores constituiu um momento singular na história do prémio, ao proporcionar uma plataforma comum para artistas reconhecidos pela originalidade das suas linguagens e pela diversidade das suas abordagens estéticas.
O conceito curatorial partiu precisamente dessa pluralidade. Em vez de procurar uniformizar estilos e técnicas, a exposição valorizou as diferenças entre os percursos individuais, construindo um espaço de diálogo no qual a identidade de cada artista contribuiu para uma narrativa colectiva.
A iniciativa procurou, assim, demonstrar que a criação artística contemporânea em Angola se desenvolve em múltiplas direcções, mantendo uma procura comum de expressão, transformação e transcendência.
Pintura, escultura e fotografia em diálogo
A estrutura artística da exposição integrou 13 pinturas originais e inéditas, três esculturas e duas obras fotográficas, complementadas por uma vídeo-performance de Mussunda Nzombo.
A diversidade de suportes permitiu explorar diferentes formas de representação da realidade, da memória, da identidade e das inquietações sociais. Cada disciplina contribuiu para uma leitura abrangente das possibilidades da criação visual contemporânea, sem apagar as particularidades técnicas e conceptuais dos respectivos autores.
Entre as obras associadas à XVIII edição do Prémio ENSA Arte destacam-se Mujikulu, de Adriano João Gaspar, distinguida com o primeiro lugar do Grande Prémio de Pintura; Bocas Abertas, Protestos Sobre a Fome, de Maiomona Vua, vencedora do primeiro lugar do Grande Prémio de Escultura; e O Legado Cultural de uma Nação, também de Maiomona Vua, que alcançou o segundo lugar na categoria de Pintura.
Na escultura, O Futuro, de Bernabé Alfredo, obteve o segundo lugar. Estas distinções evidenciam a variedade temática e expressiva dos artistas premiados, que abordam questões sociais, culturais e simbólicas através de diferentes linguagens.
Importa distinguir, contudo, as obras reconhecidas no concurso das novas peças apresentadas na colectiva, uma vez que a exposição foi concebida como uma oportunidade de continuidade e desenvolvimento da pesquisa artística dos participantes.
Performance artística amplia os limites da exposição
Um dos elementos diferenciadores da mostra foi a presença da vídeo-performance de Mussunda Nzombo, apresentada em formato audiovisual durante o período expositivo, a par de uma performance ao vivo no evento inaugural.
A componente performativa reforçou a aproximação entre as artes plásticas, o teatro, a dança e a expressão corporal, acompanhando a abertura do Prémio ENSA Arte a novas linguagens contemporâneas.
Na XVIII edição, a categoria de Performance Artística representou um alargamento do campo de reconhecimento do concurso, permitindo acolher propostas que ultrapassam os suportes tradicionais da pintura e da escultura.
Neste contexto, o trabalho de Mussunda Nzombo contribuiu para ampliar a experiência da exposição, introduzindo uma dimensão temporal e performativa no diálogo entre as obras e o público.
Um gesto colectivo de reconhecimento institucional
Para além das obras individuais, os oito artistas conceberam uma peça conjunta destinada à ENSA — Seguros de Angola, S.A., como gesto de agradecimento pelo apoio e pela realização da iniciativa.
A obra colectiva simboliza a dimensão colaborativa do projecto e a possibilidade de transformar o reconhecimento individual numa contribuição partilhada para a memória artística e institucional.
A iniciativa procurou, deste modo, estabelecer uma relação de continuidade entre os artistas, a entidade promotora do prémio e o desenvolvimento das artes visuais em Angola.
Instituto Guimarães Rosa como espaço de intercâmbio cultural
A exposição esteve patente no Instituto Guimarães Rosa, instituição ligada à promoção da língua portuguesa e ao intercâmbio cultural entre Angola e o Brasil, entre 6 e 16 de Outubro.
A escolha deste espaço conferiu à iniciativa uma dimensão adicional de diálogo cultural, ao acolher uma mostra que valoriza a produção artística angolana num ambiente de circulação de ideias, linguagens e experiências.
Entre os momentos de destaque assinalados durante a iniciativa esteve o encontro simbólico de diferentes gerações da ENSA, representadas pelos presidentes do Conselho de Administração do passado, Manuel Joaquim Gonçalves, do presente, Mário Mota Lemos, e do futuro, numa interpretação artística irreverente de Mussunda Nzombo.
Este registo, pela sua dimensão simbólica, associou a memória institucional à renovação artística, aproximando o percurso histórico da seguradora das novas formas de expressão cultural.
Prémio ENSA Arte: mais de três décadas de promoção artística
A história do Prémio ENSA Arte remonta a 1990, quando uma exposição colectiva de sete pintores angolanos foi organizada para assinalar o aniversário da seguradora ENSA. Entre os artistas associados a essa iniciativa fundadora encontravam-se Viteix, Henrique Abranches, Augusto Ferreira, Jorge Gumbe, António Ole, Telmo Vaz Pereira e Zan Andrade.
Na sequência dessa experiência, foi instituído, em 1991, o Concurso ENSA de Pintura. Em 1996, a inclusão da escultura alargou o âmbito da iniciativa e consolidou a designação Prémio ENSA Arte.
Ao longo das décadas, o concurso tornou-se uma plataforma de descoberta, valorização e consagração de artistas angolanos, acompanhando a evolução das artes visuais e a diversificação das linguagens criativas. A sua trajectória inclui a abertura a diferentes disciplinas e o reconhecimento de propostas que dialogam com tendências contemporâneas.
Na XVIII edição, realizada em 2026, a introdução da categoria de Performance Artística reforçou essa evolução, acolhendo expressões que cruzam as artes plásticas com outras formas de criação.
O prémio tem igualmente contribuído para a projecção da produção artística angolana, através da valorização dos criadores e da circulação de obras em contextos culturais nacionais e internacionais.
NOTA CONCLUSIVA
O encerramento da exposição colectiva ENSA Arte 2026, a 16 de Outubro, assinala o fim de um ciclo expositivo, mas também a continuidade de uma experiência de colaboração entre oito artistas reconhecidos pela XVIII edição do prémio.
Ao reunir diferentes disciplinas e percursos criativos, a iniciativa demonstrou que a consagração artística pode constituir um ponto de partida para novas experiências, em vez de representar apenas o reconhecimento de um percurso individual.
A mostra reforçou igualmente a importância de espaços culturais como o Instituto Guimarães Rosa na promoção do intercâmbio artístico e na aproximação entre instituições, criadores e públicos.
Com mais de três décadas de história, o Prémio ENSA Arte permanece associado à descoberta e valorização de talentos nacionais, contribuindo para a preservação da memória das artes visuais e para a afirmação de novas gerações de artistas angolanos. A exposição colectiva agora concluída acrescenta a esse percurso uma experiência de criação partilhada, na qual a diversidade de linguagens se transforma numa expressão comum da vitalidade artística contemporânea.
Reportagem Especial PRESSdigi | Fotografia de: Daltron Costa
Fonte principal: ENSA — Seguros de Angola, informação institucional sobre o Prémio ENSA Arte e materiais de apresentação da exposição colectiva dos vencedores da XVIII edição.
Fontes complementares: Mercado; Forbes África Lusófona; Economia & Mercado; Ver Angola; Jornal de Angola; O País; Valor Económico; Expansão; Alliance Française de Luanda.
Alinhamento Editorial por | Kikalakalu Kia Díbya
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao































Fotos extras cedidas: Mussunda Zombo











