Da denúncia do colonialismo em África, em 1963, à contestação das estruturas de poder das Nações Unidas, em 2026, dois líderes retomam uma reflexão sobre racismo, justiça, soberania e paz mundial.
Haile Selassie: o alerta africano perante as Nações Unidas
A 4 de Outubro de 1963, o imperador etíope Haile Selassie I discursou perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, denunciando o racismo, o colonialismo e os regimes que mantinham povos africanos privados da liberdade e da dignidade humana.
Na sua intervenção, destacou a situação vivida em territórios como Angola, Moçambique e África do Sul, defendendo que a paz no continente africano não poderia ser plenamente alcançada enquanto persistissem sistemas de opressão e dominação racial.
Uma das passagens mais conhecidas desse discurso viria a ganhar projecção internacional através da música War, interpretada por Bob Marley e inspirada nas palavras do imperador etíope. A canção transformou a mensagem política num apelo universal contra a discriminação racial e as desigualdades entre os povos.
A permanência dessa referência histórica demonstra como determinadas palavras ultrapassam o momento em que foram pronunciadas e passam a integrar a memória colectiva de diferentes gerações.
Mia Mottley retoma a denúncia em 2026
Sessenta e três anos depois, em 2026, a primeira-ministra de Barbados, Mia Amor Mottley, evocou o discurso de Haile Selassie perante a mesma Assembleia Geral das Nações Unidas.
Ao recuperar as palavras do antigo imperador, Mottley procurou estabelecer uma ligação entre a denúncia histórica do racismo e os desequilíbrios que, na sua perspectiva, continuam presentes na organização política internacional.
A governante associou a mentalidade que legitimou a escravatura às desigualdades persistentes nas estruturas de poder globais. A sua intervenção deslocou, assim, a discussão do racismo enquanto fenómeno social para uma reflexão sobre os mecanismos institucionais que influenciam a tomada de decisões à escala mundial.
O ponto central da sua mensagem foi a necessidade de rever estruturas internacionais que, apesar das profundas transformações políticas ocorridas desde meados do século XX, continuam a reflectir uma distribuição desigual de influência e poder.
O Conselho de Segurança e os limites da ordem internacional
Entre as questões suscitadas por esta reflexão encontra-se a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde cinco países — China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia — detêm assentos permanentes e poder de veto.
A configuração actual do Conselho resulta da ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, num contexto em que grande parte do continente africano ainda se encontrava sob domínio colonial.
A ausência de representação permanente africana no Conselho de Segurança constitui uma das principais questões levantadas nos debates sobre a reforma das Nações Unidas. Para diversos países africanos, esta realidade limita a capacidade do continente de participar, em condições de maior equilíbrio, nas decisões relativas à paz e à segurança internacionais.
A reflexão evocada por Mottley ganha relevância neste contexto: a igualdade entre os povos não depende apenas do reconhecimento formal dos direitos humanos, mas também da existência de instituições capazes de os reflectir nas suas práticas e nos seus processos de decisão.
De Addis Abeba a Nova Iorque: continuidade de uma reivindicação
A ligação entre o discurso de Haile Selassie e a intervenção de Mia Mottley representa a continuidade de uma reivindicação por uma ordem mundial mais justa e representativa.
Em 1963, a denúncia incidia directamente sobre o colonialismo e a opressão racial que afectavam os povos africanos. Em 2026, a evocação desse legado coloca igualmente em evidência as desigualdades estruturais que persistem na governação global.
Embora separados por mais de seis décadas e por contextos políticos distintos, os dois pronunciamentos convergem na defesa da dignidade humana, da igualdade e de uma paz que não se limite à ausência de confrontos armados.
A referência à filosofia denunciada por Haile Selassie e às instituições questionadas por Mottley permite compreender que a transformação das relações internacionais exige não apenas compromissos declarativos, mas também mudanças concretas nos mecanismos de representação, responsabilização e exercício do poder.
A música como memória política e consciência colectiva
A interpretação de War, por Bob Marley, contribuiu para projectar a mensagem de Haile Selassie para além dos espaços diplomáticos, aproximando-a de públicos de diferentes países e gerações.
A música tornou-se um instrumento de memória e contestação, mantendo viva uma reflexão sobre a discriminação racial, a liberdade e as consequências das desigualdades sociais e políticas.
O facto de esse discurso continuar a ser citado demonstra a força da cultura como meio de preservação histórica e de transmissão de ideias. A arte, neste caso, não substitui a acção política, mas ajuda a manter o debate público sobre questões que permanecem por resolver.
Nota conclusiva
A evocação de Haile Selassie por Mia Mottley, em 2026, reafirma a actualidade de uma discussão que atravessa a história contemporânea: a distância entre os princípios universais de igualdade e a forma como o poder é efectivamente distribuído no mundo.
Para África, esta reflexão tem particular importância, tendo em conta o legado do colonialismo e os actuais debates sobre representação, soberania e reforma das instituições multilaterais.
Mais do que recordar um discurso histórico, importa compreender as questões que continuam por responder. A paz duradoura exige o reconhecimento da dignidade humana, a rejeição de hierarquias raciais e a construção de instituições internacionais mais inclusivas e representativas.
A mensagem que atravessou gerações, da diplomacia à música, continua a convocar governos, instituições e sociedades para uma responsabilidade comum: transformar os princípios de justiça e igualdade em práticas concretas.
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Fonte principal: Historical Africa — publicação de referência histórica nas redes sociais.
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