Luanda revisita memórias da escravidão e as marcas do Atlântico Negro na história de Angola

Colóquio promovido pela CNU-Angola e Associação Kusanguluka debate património, memória, heranças e responsabilidades históricas
Luanda – A Comissão Nacional de Angola para a UNESCO (CNU-Angola), em parceria com a Associação Kusanguluka, realiza esta sexta-feira, em Luanda, o colóquio “Luanda e o Atlântico Negro: Memórias, Figuras e Heranças da Escravidão”, iniciativa dedicada à reflexão sobre o papel histórico da capital angolana no tráfico transatlântico de africanos escravizados e sobre as marcas desse processo na sociedade contemporânea.
O encontro decorre no Instituto Guimarães Rosa, reunindo diferentes perspectivas sobre um dos capítulos mais complexos da história de Angola e das suas relações com o espaço atlântico.
Memória histórica como instrumento de conhecimento
A iniciativa integra as actividades do Dia Internacional da Lembrança do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, assinalado pela UNESCO a 23 de Agosto.
O colóquio pretende contribuir para uma leitura crítica do passado, promovendo o conhecimento sobre os processos históricos associados ao tráfico transatlântico e os seus impactos sociais, culturais e económicos.
A proposta parte igualmente da necessidade de preservar memórias, identificar vestígios históricos e estimular novas interpretações sobre acontecimentos que continuam a influenciar a sociedade actual.
Continuidade de um projecto iniciado em 2025
O encontro dá continuidade ao projecto transdisciplinar “No Coração Periférico da Escravidão: Memórias, Vestígios e Património em Luanda”, lançado em 2025.
A iniciativa procura aprofundar a investigação e a documentação de lugares, personagens e memórias relacionados com a história da escravidão em Luanda, colocando diferentes áreas do conhecimento em diálogo.
A abordagem transdisciplinar pretende aproximar investigação académica, património, cultura e participação social.
Mulheres e poder na economia escravocrata
Entre os temas previstos para debate está a relação entre mulheres e poder na economia escravocrata, procurando ampliar a compreensão sobre os diferentes papéis desempenhados pelas mulheres nos sistemas sociais e económicos associados ao período.
A discussão permitirá igualmente questionar narrativas históricas tradicionais e trazer para o centro do debate experiências e protagonismos que muitas vezes permanecem pouco visíveis nos registos históricos.
Figuras históricas e trabalho de memória
Outro eixo será dedicado às figuras históricas e ao trabalho de memória, valorizando personagens que participaram ou foram directamente afectados pelos processos associados ao tráfico de pessoas escravizadas.
A recuperação dessas memórias poderá contribuir para construir uma narrativa histórica mais abrangente e estimular novas pesquisas sobre os protagonistas e as comunidades envolvidas.
Heranças, responsabilidade e reparação
O programa inclui igualmente a reflexão sobre heranças do tráfico, responsabilidade e reparação, colocando em discussão os efeitos que permanecem na sociedade e nas relações entre África, Europa e as Américas.
A abordagem abre espaço para discutir de que forma a memória histórica pode contribuir para compreender desigualdades, identidades e desafios contemporâneos, bem como para pensar mecanismos de reconhecimento e valorização das populações afectadas.
Luanda e as conexões do Atlântico Negro
A relação entre Luanda e o Atlântico Negro constitui um dos principais eixos do colóquio.
A cidade ocupou um lugar relevante nas redes históricas que ligaram diferentes territórios africanos ao espaço atlântico, tornando-se um ponto importante para compreender os fluxos humanos, económicos e culturais associados ao tráfico transatlântico.
A discussão pretende também evidenciar como essas conexões produziram heranças que continuam presentes nas culturas, identidades e relações entre Angola, África, Brasil e outras partes do mundo atlântico.
Investigação, cultura e sociedade em diálogo
A organização pretende reunir investigadores, académicos, estudantes, agentes culturais e representantes da sociedade civil, criando um espaço de diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
A iniciativa procura, desta maneira, ultrapassar os limites do debate exclusivamente académico e aproximar a memória histórica de novos públicos, especialmente das gerações mais jovens.
Património e memória como responsabilidade colectiva
Ao promover o colóquio, a CNU-Angola e a Associação Kusanguluka procuram reforçar a valorização da memória histórica como componente do património cultural nacional.
A preservação de lugares, relatos, documentos e testemunhos relacionados com a escravidão poderá contribuir para uma compreensão mais profunda da história de Angola e das suas ligações com o mundo.
O encontro propõe, assim, olhar para o passado não apenas como registo histórico, mas como património vivo capaz de iluminar debates sobre identidade, cultura, justiça e responsabilidade no presente.
Fonte: REDE NACIONAL | Jornal de Angola
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
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