Caldo do Poeira reúne filhos de artistas e transforma memória musical em continuidade geracional
Edição especial da Rádio Nacional de Angola levou ao Espaço Prova d’Art, em Luanda, descendentes de grandes referências da música angolana para interpretar obras que atravessaram gerações e reafirmar o papel do Semba na memória cultural do país.
Um encontro entre memória, música e novas gerações
O Espaço Prova d’Art, no Parque Miramar, em Luanda, recebeu, no dia 27 de Setembro de 2026, uma edição especial do Caldo do Poeira, projecto músico-cultural da Rádio Nacional de Angola (RNA) dedicado ao resgate, valorização e divulgação da música popular angolana.
Sob o tema “Caldo do Poeira com os filhos dos artistas”, a iniciativa colocou em palco descendentes directos de reconhecidas figuras da música nacional, convidados a interpretar temas associados aos seus familiares e às referências históricas do Semba.
A proposta estabeleceu uma ligação entre diferentes gerações da música angolana: de um lado, o repertório construído por artistas que marcaram a história da Música Popular Angolana; do outro, intérpretes da nova geração chamados a revisitar esse património através das suas próprias vozes e interpretações.
A própria RNA apresentou a edição como uma homenagem aos precursores do Semba e às referências que contribuíram para a afirmação da música angolana.
Os filhos dos artistas assumem o palco da memória
A edição contou com a participação de Djanira Mercedes, Solange Candinho, Ésio Adriano, Zecax Jr, Manucho Burity, Urbanito Filho, Tony do Fumo Jr, Armandinho Paulino, Pirica Duia e Lolito da Paixão.
O alinhamento reuniu diferentes vozes ligadas a famílias com forte presença na história da música angolana, criando um espectáculo assente na transmissão de repertórios entre gerações.
Entre as referências evocadas estiveram nomes como Artur Adriano, Tony do Fumo, Urbano de Castro, Lulas da Paixão, Zecax e Carlos Burity, cujas obras continuam a integrar a memória musical angolana.
Mais do que uma reprodução de repertório, a presença dos descendentes introduziu uma dimensão de continuidade: as canções deixadas pelas gerações anteriores voltaram ao palco através de intérpretes que carregam, simultaneamente, uma relação familiar e artística com esse legado.
Banda Movimento assegura a ponte sonora
O suporte instrumental esteve a cargo da Banda Movimento, formação que tem acompanhado diversas edições do Caldo do Poeira e desempenhado um papel importante na recriação ao vivo dos repertórios apresentados pelo projecto.
A presença da banda permite reunir diferentes intérpretes sob uma mesma estrutura musical, preservando arranjos e sonoridades associados aos ritmos urbanos que marcaram diferentes períodos da música angolana.
Em edições anteriores realizadas em Luanda e noutras províncias, a Banda Movimento voltou a assumir o acompanhamento dos artistas convidados, incluindo homenagens a figuras como Carlos Lamartine e Minguito.
Caldo do Poeira: mais de duas décadas de memória musical
O Caldo do Poeira possui uma trajectória iniciada em 26 de Agosto de 2001, quando realizou a sua primeira edição no antigo refeitório da Rádio Nacional de Angola.
Desde então, o projecto percorreu 14 das então 18 províncias de Angola e realizou mais de 90 edições, consolidando uma trajectória dedicada à recuperação e valorização dos ritmos populares urbanos e de artistas que contribuíram para a história da música nacional.
Ao longo da sua existência, o projecto assumiu também uma dimensão documental, funcionando como espaço de encontro entre músicos, público, investigadores, comunicadores e diferentes gerações de apreciadores da música angolana.
A sua trajectória inclui homenagens a nomes como David Zé, Mamukueno, Artur Adriano, António do Fumo, Kissangela, Boto Trindade, Paulo 9, Matadidi, Samangwana e Zé Viola, entre outras referências da música nacional.
O Semba como herança e continuidade
A edição dedicada aos filhos dos artistas reforça uma das dimensões centrais do Caldo do Poeira: a utilização da música como instrumento de transmissão de memória.
O Semba, enquanto expressão musical profundamente ligada à história urbana e social de Angola, encontra neste tipo de iniciativa uma plataforma para dialogar com públicos e intérpretes de diferentes gerações.
A passagem do repertório de pais para filhos acrescenta uma dimensão familiar à transmissão cultural, mas também coloca em evidência uma questão mais ampla: como preservar uma memória musical sem impedir que as novas gerações a interpretem, recriem e projectem para novos públicos?
É neste espaço entre memória e contemporaneidade que iniciativas como o Caldo do Poeira assumem relevância enquanto plataformas de documentação cultural.
Prova d’Art consolida-se como espaço de encontro cultural
A realização da edição no Espaço Prova d’Art, no Parque Miramar, enquadra-se numa sequência de apresentações do Caldo do Poeira naquele espaço cultural.
Em 2026, o recinto recebeu, entre outras iniciativas, a edição dedicada a Carlos Lamartine, igualmente com acompanhamento da Banda Movimento.
O espaço tem vindo a funcionar como ponto de encontro para diferentes iniciativas culturais e artísticas, criando condições para a apresentação de projectos musicais que aproximam artistas, público e diferentes expressões das indústrias criativas.
No âmbito da parceria estabelecida com o projecto, o Prova d’Art passa também a integrar esta dinâmica de valorização e circulação da música angolana.
PRESSdigi presente na documentação da memória cultural
Nesta edição especial, o PRESSdigi esteve presente através da sua cobertura fotográfica e documental, com o propósito de registar o encontro entre artistas, público, música e memória.
Para o canal, documentar manifestações desta natureza significa também contribuir para a construção de um arquivo visual sobre a cultura angolana contemporânea.
A fotografia de reportagem permite preservar momentos que ultrapassam a duração do espectáculo: os artistas em palco, os encontros entre gerações, a presença do público, os bastidores e os diferentes gestos que compõem a experiência cultural.
Neste sentido, documentar é também participar na construção da memória — registando o presente para que futuras gerações possam reconhecer os seus protagonistas, espaços e expressões culturais.
Nota conclusiva
A edição “Caldo do Poeira com os filhos dos artistas” colocou em diálogo a memória dos grandes nomes da música angolana com uma geração que assume a responsabilidade de interpretar e transportar esse repertório para o presente.
Realizada no Espaço Prova d’Art, em Luanda, a iniciativa da Rádio Nacional de Angola reafirmou a vocação histórica do Caldo do Poeira para aproximar gerações através da música e preservar referências da Música Popular Angolana.
Ao trazer os descendentes dos artistas para o centro do palco, o projecto acrescentou uma dimensão particularmente simbólica à sua trajectória: a memória deixa de ser apenas lembrança e passa a constituir uma herança em movimento.
É nessa continuidade — entre o que foi construído, o que é vivido e aquilo que será transmitido — que o Semba permanece como uma das expressões fundamentais da memória musical angolana ou como lhe tratamos no canal, MPA – Musica Popular Angolana.
CRÉDITOS
Reportagem Especial: KIKALAKULU KIA DÍBYA | DALTRON COSTA | PRESSdigi.ao
Cobertura: PRESSdigi | Fotografia e documentação cultural
Rede: Rede Nacional
Fonte principal: Rádio Nacional de Angola — RNA
Fontes complementares: VerAngola; O País
Local: Espaço Prova d’Art, Parque Miramar — Luanda
Data: 27 de Setembro de 2026
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Edição: PRESSdigi





















