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Cinema e televisão angolana despedem-se de uma referência histórica

O realizador e argumentista angolano Abel Alexandre Fragata Couto André, artisticamente conhecido como Abel Couto, faleceu no domingo, 26 de Abril, na cidade de Toulouse, em França, aos 62 anos, deixando um legado incontornável para a história da televisão e do audiovisual angolano.

Natural da província da Huíla, Abel Couto formou-se na prestigiada escola internacional de cinema Cubanacan, em Cuba, e tornou-se uma das figuras centrais da construção da ficção televisiva nacional.

O homem que abriu caminhos na TPA

Foi desafiado pelo então director da Televisão Pública de Angola (TPA), Rui de Carvalho, a produzir e realizar a primeira peça de ficção da televisão angolana, num período em que o país procurava afirmar a sua identidade cultural através da imagem e da narrativa audiovisual.

Abel Couto assinou obras marcantes como A Garota da Praia e Zefa do Sete, produções que ajudaram a consolidar a teledramaturgia angolana e aproximaram o público de histórias profundamente ligadas à realidade social e cultural do país.

Reconhecido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, o realizador defendia uma visão colectiva da criação artística, recordando frequentemente o forte engajamento cultural vivido até ao início da década de 1990.

Entre a ficção e a descoberta da natureza angolana

Para além da ficção televisiva, Abel Couto dedicou parte significativa da sua trajectória à documentação das riquezas naturais de Angola. Em entrevista à TPA, revelou ter passado dois anos a filmar florestas angolanas, identificando espécies da fauna e flora ainda não catalogadas.

O material recolhido resultou num documentário ainda inédito, considerado por muitos como um importante património visual e científico por revelar.

Homenagens marcam despedida de um mestre

A morte de Abel Couto gerou uma onda de homenagens no sector cultural e artístico angolano. Entre os testemunhos mais emocionantes destaca-se o do actor Walter Ferreira, que recordou o realizador como um mestre simples, visionário e profundamente humano.

Segundo Walter Ferreira, foi pelas mãos de Abel Couto que ingressou no universo da representação e da televisão, descrevendo-o como “o pai da ficção televisiva em Angola” e um criador que dominava a escrita audiovisual com singularidade.

O actor evocou ainda ensinamentos marcantes deixados pelo realizador, destacando a sua sensibilidade artística, capacidade de orientação e humor peculiar, elementos que marcaram gerações de actores e profissionais da televisão.

Um legado eterno para a cultura angolana

Mais do que realizador, Abel Couto tornou-se símbolo de pioneirismo e resistência criativa numa fase decisiva da televisão nacional. O seu contributo permanece vivo na memória colectiva e na evolução da produção audiovisual angolana.

A sua partida representa uma perda significativa para a cultura nacional, mas também reforça a necessidade de preservação e valorização da história da ficção angolana e dos seus protagonistas.

Fonte: Jornal de Angola | Rede Nacional
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao