Téte António apresenta prioridades angolanas no Alamein Africa Forum, no Egipto, e apela ao reforço do comércio intra-africano, à transformação local dos recursos naturais e à reforma da arquitectura financeira internacional
Diplomacia económica no centro da agenda africana
O Ministro das Relações Exteriores, Téte António, participou, na sexta-feira, 2 de Outubro, em El-Alamein, República Árabe do Egipto, na mesa-redonda ministerial especial da edição inaugural do Alamein Africa Forum, subordinada ao tema “O Comércio e a Cooperação Económica no Centro da Diplomacia Pan-Africana”.
Durante a sua intervenção, o chefe da diplomacia angolana defendeu que o comércio e o investimento devem ocupar uma posição central na agenda diplomática africana, considerando que factores económicos estão entre as causas profundas de muitos conflitos no continente.
O governante agradeceu ao seu homólogo egípcio, Badr Abdelatty, pela recepção e pelas condições proporcionadas à realização do encontro, destacando o compromisso do país anfitrião com a cooperação pan-africana.
O fórum foi concebido como uma plataforma de aproximação entre governos, instituições financeiras e sector empresarial, com o propósito de transformar prioridades políticas em projectos concretos de desenvolvimento e investimento.
Educação e capacitação da juventude africana
Entre as prioridades apresentadas por Téte António esteve a formação do capital humano, com particular atenção à juventude, que representa uma parcela expressiva da população africana.
O ministro defendeu políticas educativas harmonizadas e complementares, capazes de preparar as novas gerações para responder às transformações económicas, tecnológicas e sociais.
A abordagem inclui a necessidade de desenvolver competências para enfrentar os impactos da inteligência artificial, promover a inovação e criar condições para que o talento africano encontre oportunidades profissionais no próprio continente.
A valorização das capacidades locais foi apresentada como um factor relevante para reduzir a saída de quadros qualificados e aproveitar melhor o potencial demográfico de África.
Infra-estruturas e conectividade económica
A melhoria das infra-estruturas foi igualmente destacada como condição para dinamizar o comércio intra-africano e facilitar a circulação de pessoas, mercadorias e serviços.
Téte António recordou a realização, em Angola, da 3.ª Cimeira sobre o Financiamento de Infra-estruturas em África, em Outubro de 2025, defendendo a necessidade de acompanhar os compromissos assumidos pelos governos e parceiros.
Segundo a posição apresentada pelo governante, a avaliação regular dos projectos e a correcção de eventuais falhas são essenciais para acelerar a execução das iniciativas e melhorar a conectividade entre os mercados africanos.
O desenvolvimento de infra-estruturas de transporte, energia, água e comunicação constitui, neste quadro, uma dimensão importante da integração económica e da competitividade continental.
Transformação local dos recursos naturais
No domínio industrial, o ministro defendeu que os recursos naturais e os minerais críticos devem ser transformados em África, de modo a ampliar os benefícios económicos gerados no continente.
A proposta passa por reforçar a capacidade industrial local, desenvolver cadeias de valor e criar empregos, reduzindo a dependência da exportação de matérias-primas sem transformação.
A industrialização dos recursos africanos poderá, segundo esta perspectiva, aumentar o valor acrescentado da produção, estimular a transferência de conhecimentos e fortalecer a posição dos países africanos nos mercados internacionais.
O governante relacionou ainda esta questão com as disputas geoeconómicas externas, sublinhando a importância de uma gestão dos recursos orientada para o desenvolvimento e para a redução das vulnerabilidades que podem alimentar tensões locais.
Mercado comum e reforço do comércio intra-africano
A consolidação do mercado comum africano e o aprofundamento do diálogo entre os países foram apresentados como instrumentos para fortalecer a integração económica.
A criação de condições favoráveis à circulação de bens e serviços, ao investimento e à cooperação empresarial poderá contribuir para aproximar as economias nacionais e ampliar as oportunidades comerciais entre regiões.
Neste contexto, o reforço do comércio intra-africano depende não apenas dos compromissos políticos, mas também da capacidade de concretizar infra-estruturas, mecanismos de facilitação comercial e cadeias de produção transfronteiriças.
O Alamein Africa Forum procura aproximar estas dimensões ao reunir responsáveis políticos, organizações continentais, instituições financeiras e actores empresariais.
Paz e segurança como condições para o desenvolvimento
A relação entre economia e estabilidade ocupou também lugar de destaque na intervenção angolana.
Téte António reiterou o papel do Presidente da República, João Lourenço, enquanto Campeão da União Africana para a Paz e Reconciliação em África, e recordou a realização, em Luanda, da 21.ª Cimeira Extraordinária da União Africana, em Agosto de 2026.
O ministro aproveitou igualmente a ocasião para convidar os participantes a integrarem a 4.ª edição da Bienal de Luanda para a Cultura de Paz, anunciada para os dias 22 e 23 de Outubro.
A posição apresentada associa a construção da paz à criação de condições económicas e sociais que favoreçam a estabilidade, a cooperação entre os Estados e a melhoria das condições de vida das populações.
Dívida externa e reforma da arquitectura financeira internacional
Outro ponto central da intervenção foi a sustentabilidade financeira dos países africanos.
Téte António retomou o apelo à reforma da arquitectura financeira internacional, referindo o peso do serviço da dívida sobre os orçamentos públicos e a pressão que este representa para o financiamento de sectores essenciais.
Na perspectiva apresentada por Angola, os encargos financeiros elevados limitam a margem disponível para investimentos em saúde, educação, infra-estruturas e outros domínios estruturantes.
A discussão coloca em evidência a necessidade de mecanismos de financiamento mais sustentáveis e de condições que permitam aos países africanos mobilizar recursos para projectos de desenvolvimento de longo prazo.
Resiliência climática, saúde e segurança humana
A intervenção abordou igualmente os desafios ambientais e sanitários, defendendo soluções resilientes perante a degradação ambiental e as grandes epidemias.
Como exemplo da experiência angolana na mitigação dos efeitos das alterações climáticas no sul do país, Téte António mencionou o Canal do Cafu e as barragens do Ndue e do Calucuve, infra-estruturas associadas ao reforço do acesso à água e ao apoio às comunidades afectadas pela escassez hídrica.
A referência procurou demonstrar a importância de investir em projectos capazes de responder às vulnerabilidades climáticas e contribuir para a segurança hídrica, a actividade económica e a melhoria das condições de vida.
A adaptação climática e a resiliência sanitária foram, assim, enquadradas entre as dimensões que devem acompanhar as estratégias africanas de crescimento e integração.
Participação ministerial e cooperação multilateral
A mesa-redonda reuniu responsáveis governamentais e representantes de instituições continentais e financeiras.
Entre os participantes estiveram o ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros, Badr Abdelatty; o ministro egípcio do Investimento e Comércio Externo, Mohamed Farid Saleh; a directora executiva da AUDA-NEPAD, Nardos Bekele-Thomas; e o ministro dos Negócios Estrangeiros do Burundi, Édouard Bizimana, então presidente em exercício do Conselho Executivo da União Africana.
O painel contou ainda com representantes da Guiné Equatorial, Tanzânia e Nigéria, bem como com Massad Boulos, conselheiro sénior do Presidente dos Estados Unidos, Wamkele Mene, secretário-geral do Secretariado da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), e Abdullah Almusaibeeh, presidente do Banco Árabe para o Desenvolvimento Económico em África (BADEA).
A diversidade institucional dos participantes reflectiu a intenção de aproximar a diplomacia, as políticas comerciais, o financiamento e o investimento privado na procura de soluções para os desafios económicos africanos.
Do compromisso político à execução de projectos
A mensagem central da intervenção angolana converge com um dos objectivos estruturantes do Alamein Africa Forum: criar uma plataforma de realização bienal que aproxime as prioridades políticas africanas de projectos concretos, financiáveis e capazes de gerar resultados económicos.
A proposta passa pelo desenvolvimento de cadeias de valor transfronteiriças, pela mobilização de capitais privados e pela construção de parcerias duradouras entre governos, instituições financeiras e empresas.
A concretização destas ambições dependerá da capacidade de transformar declarações e compromissos em investimentos executados, infra-estruturas funcionais, produção industrial, emprego e maior integração dos mercados africanos.
NOTA CONCLUSIVA
A participação de Téte António no Alamein Africa Forum colocou em evidência a posição defendida por Angola sobre a necessidade de aproximar a diplomacia económica dos desafios concretos do desenvolvimento africano.
Educação, infra-estruturas, industrialização, comércio intra-africano, paz, sustentabilidade financeira e resiliência climática surgem como dimensões interligadas de uma agenda que procura reforçar a autonomia económica do continente.
O desafio que permanece para os governos e parceiros africanos consiste em assegurar que as prioridades identificadas se traduzam em políticas coordenadas, projectos executáveis e resultados mensuráveis para as populações.
Para Angola, a participação neste diálogo representa uma oportunidade de partilhar experiências nacionais e contribuir para a construção de mecanismos de cooperação orientados para uma integração africana com maior capacidade produtiva, financeira e institucional.
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CRÉDITOS
Fonte principal: Ministério das Relações Exteriores da República de Angola — MIREX
Enquadramento complementar: União Africana — UA; Alamein Africa Forum
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