Inspirado nos desenhos tradicionais traçados na areia, o espectáculo de Ana Clara Guerra Marques e Andy Rodriguez questiona os mecanismos de submissão social e propõe uma reflexão sobre liberdade, tradição e relações humanas
Luanda — A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola) apresenta “Sona 137”, espectáculo integrado na sua Temporada 2026, que estabelece um diálogo entre a sabedoria ancestral do povo Cokwe e as linguagens da dança contemporânea.
A criação inspira-se nos Sona, desenhos tradicionais traçados na areia, associados aos conhecimentos, à memória e às formas de transmissão cultural das comunidades Cokwe. A obra toma como referência específica o desenho número 137, registado pelo investigador Mário Fontinha na publicação de referência Desenhos na Areia dos Quiocos do Nordeste de Angola, de 1983.
A partir desta herança cultural, a companhia propõe uma abordagem artística que transporta para o palco questões relacionadas com a sociedade, o poder, a tradição e os caminhos que condicionam a liberdade individual e colectiva.
Da geometria ancestral à linguagem do corpo
A coreografia, assinada por Ana Clara Guerra Marques e Andy Rodriguez, desenvolve uma interpretação livre e contemporânea dos princípios visuais e simbólicos dos Sona.
Tal como as linhas dos desenhos podem formar percursos que se cruzam e se fecham sobre si mesmos, o espectáculo utiliza essa imagem como ponto de partida para questionar os caminhos sociais que, em vez de libertarem, podem aprisionar o indivíduo.
A dança transforma-se, assim, num espaço de reflexão sobre os mecanismos de submissão presentes na política, na religião, na tradição e nas relações humanas.
Mais do que reproduzir uma referência ancestral, “Sona 137” procura reinterpretá-la através do movimento, da composição cénica e da expressão corporal, aproximando o património cultural de questões que permanecem actuais.
Ancestralidade, identidade e pensamento crítico
Os Sona representam uma importante expressão do conhecimento tradicional Cokwe, reunindo elementos gráficos, narrativos e simbólicos transmitidos entre gerações.
Ao incorporar esta referência numa criação contemporânea, a CDC Angola contribui para ampliar as possibilidades de interpretação artística do património africano, demonstrando como os conhecimentos ancestrais podem dialogar com novas linguagens sem perder a sua relevância cultural.
A proposta coloca igualmente em evidência o papel das artes cénicas na preservação da memória e na criação de espaços de questionamento sobre a realidade social.
A música como ponte entre tradição e contemporaneidade
A composição sonora original é assinada por David López Sáez e combina a sonoridade do cisanji, instrumento musical tradicional, com ambientes sonoros contemporâneos.
Esta combinação estabelece uma relação entre referências musicais de matriz tradicional e recursos sonoros actuais, acompanhando a proposta coreográfica e contribuindo para a construção da identidade estética do espectáculo.
O diálogo entre movimento, música e património reforça a dimensão multidisciplinar da criação, na qual diferentes elementos artísticos convergem para desenvolver uma experiência cénica integrada.
Elinga Teatro acolhe a Temporada 2026
O espectáculo está programado para o Elinga Teatro, em Luanda, no âmbito da Temporada 2026 da CDC Angola.
Informações sobre as apresentações:
- Local: Elinga Teatro, Luanda
- Período anunciado: 1 a 18 de Outubro de 2026
- Dias: Quintas-feiras, sextas-feiras, sábados e domingos
- Horário: 19h00
- Reservas: 959 055 490 | 925 155 887
- E-mail: cdcangola.geral@gmail.com
Para confirmação de sessões, disponibilidade e condições de acesso, recomenda-se o contacto directo com a companhia.
Nota conclusiva
Com “Sona 137”, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola reafirma o potencial da criação artística como espaço de encontro entre ancestralidade e contemporaneidade.
Ao partir dos desenhos tradicionais Cokwe para questionar as estruturas que condicionam a liberdade humana, a obra propõe uma leitura crítica da sociedade e valoriza o património cultural como fonte de inspiração, conhecimento e transformação.
A criação evidencia, assim, a importância de manter vivas as referências culturais angolanas, não apenas como testemunhos do passado, mas também como matéria activa para novas narrativas artísticas e para a afirmação da identidade cultural no presente.
Créditos: CDC Angola | Companhia de Dança Contemporânea de Angola | Jorge António
Alinhamento Editorial: Kikalakalu Kia Díbya
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Fontes principais: Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola) e Jornal de Angola.







