ÁGUA COMO RECURSO ESTRATÉGICO PARA A PAZ
A 4.ª edição da Bienal de Luanda — Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz e Não Violência, prevista para os dias 22 e 23 de Outubro de 2026, colocará a governação da água no centro do debate sobre prevenção, mediação e resolução de conflitos em África.
Realizado por iniciativa de Angola, em parceria com a União Africana (UA) e a UNESCO, o encontro pretende promover o diálogo entre líderes políticos, especialistas, jovens, organizações da sociedade civil e outros intervenientes sobre os desafios relacionados com os recursos hídricos e a sua importância para a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável. <Cite refs={[“turn215482search0″,”turn215482search2”]} />
A proposta parte de uma questão central: num contexto de alterações climáticas, pressão sobre os recursos naturais e desigualdade no acesso à água, como transformar um potencial factor de tensão num instrumento de aproximação entre povos e comunidades?
GOVERNAÇÃO DA ÁGUA E PREVENÇÃO DE CONFLITOS
A edição deste ano será orientada pelo tema “Reforço da Governação da Água em África como Instrumento de Prevenção, Mediação e Resolução de Conflitos”.
A abordagem procura deslocar o debate da água enquanto recurso sujeito a disputas para uma perspectiva de cooperação, gestão partilhada e construção de mecanismos de confiança entre os Estados e as comunidades.
De acordo com o enquadramento apresentado pelas autoridades angolanas, a Bienal pretende estimular a cooperação transfronteiriça e a diplomacia da água, bem como analisar as relações entre os recursos hídricos, as alterações climáticas, a migração e a deslocação interna. <Cite refs={[“turn215482search0″,”turn215482search2”]} />
A governação dos recursos hídricos surge, assim, como uma dimensão que envolve não apenas políticas ambientais, mas também decisões económicas, sociais, científicas e diplomáticas.
ANA ELISA SANTANA AFONSO: EDUCAÇÃO COMO BASE DA CULTURA DE PAZ
Em declarações à RFI, Ana Elisa Santana Afonso, coordenadora internacional da Bienal de Luanda e antiga funcionária da UNESCO, defendeu uma visão da paz como construção colectiva e comportamento que deve ser aprendido e praticado no quotidiano.
A responsável relaciona a educação, a alfabetização e a participação dos diferentes actores sociais com a transformação das mentalidades e a prevenção da violência.
Nesta perspectiva, a cultura de paz não se limita à resolução de conflitos depois da sua ocorrência. Envolve também a criação de condições sociais, educativas e institucionais que permitam prevenir tensões, reforçar o respeito pela vida e promover relações de cooperação.
A visão apresentada por Ana Elisa Santana Afonso aproxima a educação para a paz dos desafios relacionados com a água, ao considerar a comunicação, a aprendizagem e o diálogo como instrumentos para a construção de relações mais equilibradas entre pessoas, comunidades e povos.
DOS RIOS À CIRCULAÇÃO DE POVOS E CULTURAS
A água possui uma dimensão histórica que ultrapassa a sua função como recurso natural.
Rios, lagos e outras vias navegáveis contribuíram, ao longo do tempo, para a circulação de pessoas, mercadorias, conhecimentos e expressões culturais. Esses espaços favoreceram contactos entre comunidades e a construção de relações de intercâmbio e interdependência.
A perspectiva apresentada pela coordenadora da Bienal propõe que essa dimensão de ligação seja igualmente considerada nas políticas de prevenção de conflitos.
A água pode ser objecto de disputa quando o acesso aos recursos é desigual ou quando a sua gestão não contempla os interesses das populações. Porém, também pode constituir uma plataforma de diálogo, cooperação e aproximação entre diferentes sociedades.
O desafio está na forma como os Estados, as instituições e as comunidades organizam a sua governação e estabelecem mecanismos de utilização partilhada.
ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, ESCASSEZ E DESLOCAÇÃO DE POPULAÇÕES
A gestão da água ocorre num contexto marcado pela intensificação de desafios ambientais e sociais.
A escassez de recursos hídricos, a irregularidade das chuvas e os efeitos das alterações climáticas podem agravar as dificuldades de acesso à água, afectar a produção agrícola e aumentar a pressão sobre os territórios.
Em sentido inverso, os episódios de cheias e inundações podem provocar deslocações populacionais, destruição de infra-estruturas e riscos para a saúde pública.
A Bienal pretende abordar esta relação entre água, clima, migração e deslocação interna, integrando os desafios ambientais no debate sobre paz, segurança e desenvolvimento.
A discussão exige respostas que articulem prevenção de riscos, investimento em infra-estruturas, planeamento territorial, acesso equitativo aos recursos e participação das comunidades.
EXPERIÊNCIAS AFRICANAS E COOPERAÇÃO TRANSFRONTEIRIÇA
O debate sobre a água assume uma dimensão continental, tendo em conta que vários recursos hídricos atravessam fronteiras nacionais e exigem mecanismos de coordenação entre diferentes Estados.
A cooperação transfronteiriça e a diplomacia da água podem contribuir para a partilha de informação, a gestão de bacias hidrográficas, a prevenção de tensões e a construção de compromissos entre países.
No caso de Angola, a organização da Bienal prevê a apresentação de experiências nacionais relacionadas com a governação da água, incluindo projectos associados ao combate aos efeitos da seca no Sul do país.
A partilha dessas experiências poderá contribuir para uma reflexão mais ampla sobre soluções adaptadas às realidades sociais, ambientais e económicas dos diferentes territórios africanos.
CIÊNCIA, JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO INTERGERACIONAL
A programação da 4.ª Bienal de Luanda prevê a participação de líderes políticos, jovens líderes africanos, especialistas e representantes de instituições nacionais e internacionais.
O encontro pretende promover um diálogo intergeracional sobre os desafios da governação da água, valorizando a ciência, a inovação, a formação e o desenvolvimento do capital humano.
A inclusão da juventude neste debate permite considerar as novas gerações como participantes na construção de respostas para questões que terão impacto directo sobre o futuro dos territórios, dos ecossistemas e das comunidades.
A educação científica, a participação cívica e o acesso à informação podem reforçar a capacidade de intervenção dos jovens nos processos de gestão dos recursos naturais e de construção da paz.
ANGOLA COMO ESPAÇO DE DIÁLOGO AFRICANO
A realização da Bienal de Luanda reforça a intenção de posicionar Angola como espaço de diálogo sobre a cultura de paz, a cooperação continental e a prevenção da violência.
A iniciativa conjunta do Governo angolano, da União Africana e da UNESCO procura articular diferentes sectores e gerações em torno de desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Ao colocar a água no centro da agenda, a edição de 2026 relaciona a paz com a sustentabilidade ambiental, a governação pública, a segurança humana e a cooperação entre os povos.
A discussão sobre os recursos hídricos poderá, neste sentido, contribuir para a construção de compromissos que reconheçam a água como um bem essencial à vida e como possível instrumento de aproximação entre sociedades.
ÁGUA, MEMÓRIA E FUTURO COLECTIVO
A relação entre água, território e vida também possui uma dimensão cultural e histórica. Em diferentes sociedades africanas, os rios, as nascentes e outros espaços naturais integram memórias colectivas, práticas comunitárias e formas de organização da vida.
A protecção desses recursos implica, por isso, considerar não apenas os seus valores económicos e ambientais, mas também os conhecimentos locais, as experiências das comunidades e a relação ancestral com o território.
Uma governação inclusiva da água exige diálogo entre instituições, investigadores, comunidades, juventude e organizações da sociedade civil.
A Bienal de Luanda propõe-se contribuir para essa reflexão, associando a prevenção de conflitos à construção de uma cultura de paz sustentada pela educação, pela cooperação e pelo respeito pela vida.
REDE INTERNACIONAL | RFI.FR
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Classe / Tema: Paz e Segurança, Governação da Água, Cooperação Africana, Alterações Climáticas, Diplomacia e Desenvolvimento Sustentável
Fonte principal: RFI.FR — reportagem de Catarina Falcão sobre a 4.ª edição da Bienal de Luanda e a abordagem da água como instrumento de aproximação entre os povos e de prevenção de conflitos.
Referências complementares de enquadramento: Centro de Imprensa Aníbal de Melo; UNESCO — informações sobre a Bienal de Luanda e a cultura de paz.




