João Lourenço reafirma execução integral do PCESSA

Água, desenvolvimento e cooperação regional
O Presidente da República, João Lourenço, reafirmou a determinação do Executivo em executar integralmente o Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola (PCESSA), avaliado em cerca de 4,2 mil milhões de dólares, considerando a segurança hídrica como uma das bases para a transformação económica e social das comunidades afectadas pela seca.
As declarações foram prestadas à imprensa por ocasião da inauguração das barragens de Ndúe e Calucuve e dos respectivos canais adutores, na província do Cunene, num momento que o Executivo apresenta como parte de uma estratégia mais ampla de resposta aos efeitos da seca no Sul do país.
PCESSA: uma resposta estruturada à seca
Segundo o Presidente da República, a concepção do PCESSA teve origem em 2019, depois de uma deslocação à localidade de Ombala Yo Mungu, onde constatou as dificuldades enfrentadas pelas populações, sobretudo no acesso à água.
Desde então, a província do Cunene passou a assumir prioridade na implementação do programa, que inclui diferentes projectos destinados a aumentar a disponibilidade de água para as comunidades e para a actividade agropecuária.
João Lourenço garantiu que as intervenções previstas para as províncias da Huíla e do Namibe também serão executadas, embora de forma faseada.
“O Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola vai ser executado na sua plenitude.”
Ndúe, Calucuve e Cafu ampliam a resposta hídrica
A inauguração das barragens de Ndúe e Calucuve acrescenta novas infra-estruturas à rede de combate aos efeitos da seca no Cunene.
O Presidente recordou igualmente o Canal do Cafu, concluído há cerca de três anos e já em funcionamento, como parte das intervenções desenvolvidas no âmbito do programa.
A estratégia assenta na criação de sistemas capazes de transportar e disponibilizar água em zonas onde a escassez tem condicionado a vida das populações, a criação de gado e a produção agropecuária.
Água como base para combater a pobreza
Durante a interacção com a imprensa, João Lourenço reconheceu que a falta de água está directamente relacionada com as condições de vida das comunidades e com os desafios de pobreza existentes na região.
O acesso à água constitui, segundo o Presidente, apenas uma das componentes do combate à fome e à pobreza, que deverá ser complementada por investimentos em energia, educação, saúde, estradas e outras infra-estruturas sociais.
A orientação apresentada é de desenvolvimento progressivo das zonas abrangidas pelos projectos, aproveitando a disponibilidade de água como ponto de partida para novas actividades económicas e melhoria das condições de vida.
Infra-estruturas hídricas podem reduzir conflitos agropecuários
Outro dos impactos esperados está relacionado com a gestão dos conflitos entre agricultores e criadores de gado.
João Lourenço considerou que uma parte significativa desses conflitos tem origem na disputa pelas poucas fontes de abeberamento disponíveis, sobretudo em períodos de maior escassez.
Com o aumento dos pontos de acesso à água para pessoas e animais, o Executivo espera reduzir a pressão sobre as fontes existentes e, consequentemente, diminuir uma das causas dos conflitos entre criadores.
A disponibilidade de água poderá também criar condições para uma utilização mais organizada dos territórios destinados à actividade agropecuária.
Desenvolvimento exige acessos, energia e serviços públicos
A construção das barragens e dos canais representa uma etapa importante, mas não encerra o processo de desenvolvimento das comunidades beneficiárias.
Questionado sobre as condições de circulação, o Presidente garantiu que os acessos serão melhorados, admitindo igualmente a abertura de novas vias.
A chegada da energia eléctrica, a construção ou melhoria de escolas e o reforço dos serviços de saúde foram igualmente apontados como necessidades que deverão acompanhar a expansão das infra-estruturas hídricas.
Para João Lourenço, o desenvolvimento dessas localidades deverá acontecer gradualmente, com uma programação capaz de compatibilizar diferentes prioridades de investimento.
Sector privado chamado a participar
O Presidente da República destacou também a importância dos empresários na transformação económica das zonas próximas das novas barragens e canais.
Com maior disponibilidade de água, surgem condições para a instalação de actividades produtivas e investimentos privados ligados à agricultura, pecuária e outros sectores da economia local.
A participação empresarial é vista como complementar ao investimento público, permitindo que as infra-estruturas construídas produzam efeitos económicos mais amplos sobre as comunidades.
Namíbia acompanha experiência angolana
A dimensão regional esteve igualmente presente nas declarações presidenciais.
A participação de representantes da Namíbia na inauguração foi associada à proximidade geográfica e às condições climáticas semelhantes entre o território namibiano e a província do Cunene.
João Lourenço explicou que a seca severa afecta igualmente parte significativa do território namibiano, tornando relevante a partilha de experiências sobre soluções de gestão e distribuição de água.
Neste contexto, Angola e Namíbia trabalham na possibilidade de estender o Canal do Cafu para território namibiano, considerando que a extremidade do canal se encontra a menos de 30 quilómetros da fronteira entre os dois países.
A perspectiva acrescenta uma dimensão de cooperação transfronteiriça à estratégia de segurança hídrica do Sul de Angola.
RDC: abundância de água também exige distribuição
A presença do Presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, também foi abordada durante a conferência de imprensa.
João Lourenço estabeleceu uma diferença entre a realidade hídrica do Congo, caracterizada pela abundância de rios, lagos e precipitação, e a situação vivida pelo Sul de Angola.
Contudo, destacou que possuir grandes reservas de água não significa necessariamente que todos tenham acesso a elas.
A experiência angolana na construção de canais poderá, segundo o Presidente, constituir uma referência para países que enfrentam o desafio de transportar água de grandes cursos de água para populações localizadas a maior distância.
Cooperação regional através da água
A presença de representantes da Namíbia e da RDC na inauguração atribui ao investimento uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais.
A gestão dos recursos hídricos, sobretudo em regiões sujeitas a alterações climáticas e desigualdades na distribuição da água, poderá tornar-se uma área cada vez mais relevante da cooperação entre países africanos.
No caso do Cunene e da Namíbia, a proximidade territorial cria condições particulares para soluções partilhadas. Já a experiência de Angola na construção de canais poderá abrir espaço para intercâmbio técnico com outros países do continente.
Do combate à seca à transformação territorial
As declarações de João Lourenço colocam o PCESSA para além de uma resposta emergencial à seca.
O programa é apresentado como uma plataforma de transformação das comunidades do Sul de Angola, onde água, produção agropecuária, mobilidade, energia, serviços sociais e investimento privado deverão convergir para criar melhores condições de desenvolvimento.
A execução integral dos projectos previstos poderá representar um passo decisivo para transformar a segurança hídrica numa ferramenta de combate à pobreza, redução de conflitos e dinamização económica.
Num território historicamente marcado pela escassez de água, a chegada deste recurso às comunidades representa, nas palavras do Presidente, o início de uma nova etapa: primeiro a água, depois os demais factores necessários para o desenvolvimento.
REDE NACIONAL | Fonte principal: CIPRA
ALINHAMENTO EDITORIAL: PRESSdigi.ao
CLASSE / TEMA: Desenvolvimento | Segurança Hídrica | Combate à Seca | Sustentabilidade | Agropecuária | Cooperação Regional
LOCAL: Cunene, Angola
Seu Anúncio Aqui
970 x 400
Artigos Relacionados

PCESSA avança com aposta na segurança hídrica e transformação do Sul de Angola
No horizonte, o programa coloca uma questão essencial para o futuro das comunidades do Sul: transformar a disponibilidade de água numa plataforma permanente de desenvolvimento humano, económico e ambiental.

Angola reafirma em Hampton a memória africana que atravessou o Atlântico há 407 anos
Ao revisitar acontecimentos ligados à origem africana de comunidades afro-americanas, abre-se igualmente espaço para novas formas de intercâmbio cultural, investigação histórica, educação patrimonial e aproximação entre comunidades da diáspora e os seus territórios ancestrais.

Ildeberto Madeira: o legado de uma vida dedicada à memória e ao património do Namibe
Perante o desaparecimento do sociólogo, empresário e activista social, o Ministério da Cultura manifestou profunda consternação e apresentou condolências à família, amigos, colegas e a todos aqueles que partilharam a sua vida e actividade.
