A instituição conserva mais de 200 peças representativas da história e das tradições da região, acolhe estudantes e investigadores e prepara novas iniciativas para valorizar o poder tradicional e aproximar o património cultural das escolas.
O Museu Etnográfico do Uíge recebe entre 100 e 200 visitantes por semana, provenientes de diferentes regiões de Angola e do estrangeiro, segundo informações divulgadas pelo chefe do Departamento da Cultura, Património Histórico e Comunidades Tradicionais do Gabinete Provincial da Cultura, Nelson Bunga.
A instituição assume um papel relevante na preservação da memória colectiva, na valorização das tradições locais e no apoio à investigação académica, contribuindo para a transmissão do património cultural às novas gerações.
PATRIMÓNIO ETNOGRÁFICO E MEMÓRIA COLECTIVA
Criado em 1986, o Museu Etnográfico do Uíge está localizado no centro da cidade e reúne mais de 200 peças e artefactos relacionados com a cultura e a história da região, com destaque para referências aos povos Bakongo e Mbundu.
Segundo Nelson Bunga, entre os visitantes encontram-se estudantes do Ensino Geral e do Ensino Superior, que recorrem ao espaço para realizar pesquisas e aprofundar os seus conhecimentos, sobretudo no âmbito de trabalhos académicos.
Em Outubro de 2022, a instituição passou a adoptar a designação de Museu Etnográfico do Uíge, depois de ter funcionado durante várias décadas como Museu Etnográfico do Congo, com abrangência regional no Norte de Angola. A alteração ocorreu na sequência da criação do Museu dos Reis do Congo, em Mbanza Kongo, província do Zaire.
SETE SALAS DEDICADAS À CULTURA E À HISTÓRIA
O edifício dispõe de sete salas, uma biblioteca e espaços destinados à realização de palestras, encontros e actividades de carácter educativo e cultural.
Entre os núcleos expositivos encontra-se uma sala multidisciplinar que apresenta elementos relacionados com a vida e obra de António Agostinho Neto, primeiro Presidente da República de Angola, bem como referências à cultura local.
O museu conserva igualmente máscaras tradicionais, instrumentos musicais, utensílios de trabalho e objectos que documentam práticas sociais e económicas das comunidades da região.
Entre as peças expostas destacam-se as máscaras Nkoso e Mayamba, associadas a práticas de iniciação e a cerimónias tradicionais, incluindo ritos de passagem e manifestações de justiça comunitária, conforme a informação divulgada pela instituição.
AGRICULTURA, PESCA, CAÇA E BIODIVERSIDADE
A organização das colecções permite aos visitantes conhecer diferentes dimensões da vida tradicional, desde as actividades de subsistência até às relações entre as comunidades e o ambiente natural.
Uma das salas é dedicada à agricultura e à pesca, enquanto outro espaço reúne artefactos de caça e referências à fauna da região, com destaque para a biodiversidade da Serra do Pingano.
Entre os animais representados encontram-se o elefante, o jacaré e o antílope, elementos que contribuem para documentar a diversidade natural e a relação histórica das populações com o território.
O acervo inclui ainda instrumentos musicais tradicionais, como o kissanje, o ngoyo, o batuque e as sacaias, que recordam práticas musicais anteriores à expansão dos instrumentos e equipamentos electrónicos.
Estas colecções constituem recursos importantes para a educação patrimonial, permitindo compreender a evolução dos modos de vida e das expressões culturais locais.
RECUPERAÇÃO DE ARTEFACTOS E DESAFIOS DO PATRIMÓNIO
Nelson Bunga manifestou preocupação com a saída de peças originais da região, afirmando que vários artefactos terão sido retirados durante o final do período colonial e ao longo do conflito armado, encontrando-se actualmente em museus de países como Portugal, Itália e Espanha.
O responsável referiu também a existência, em Angola, de cerca de 70 peças provenientes das grutas de Quissanje, no município do Negage, que se encontram no Museu de Arqueologia de Benguela para estudos relacionados com a pré-História.
Segundo o responsável, estão em curso contactos institucionais com vista à recuperação de artefactos que se encontram fora da província. O processo, contudo, apresenta dificuldades associadas aos custos, às condições técnicas e aos procedimentos necessários à localização, identificação e eventual restituição dos bens patrimoniais.
A recuperação de peças históricas constitui uma dimensão importante da preservação da memória colectiva, exigindo cooperação entre instituições culturais, museus, investigadores e entidades responsáveis pela protecção do património.
NOVA SALA PRETENDE HOMENAGEAR O PODER TRADICIONAL
Entre as iniciativas anunciadas para o futuro está a criação de uma sala dedicada ao poder tradicional, destinada a homenagear soberanos que marcaram a história da região.
De acordo com Nelson Bunga, o projecto pretende valorizar a memória de antigas autoridades com influência em territórios históricos associados a Mbata, cuja referência actual inclui Maquela do Zombo, e Mbamba, ligada a áreas que abrangem os actuais municípios do Bembe e da Ambuíla, bem como referências territoriais relacionadas com Nambuangongo, na província do Bengo.
Entre os nomes recordados pelo responsável estão Mekibiang, Memalundo, Mernbungo, Biandanguinga e Manimbata, figuras que permanecem na memória das comunidades locais.
A futura sala poderá ampliar a representação das estruturas tradicionais de autoridade, contribuindo para a preservação da história política, social e cultural das comunidades e para o reconhecimento do papel desempenhado pelos seus soberanos.
PERDA DE VALORES CULTURAIS PREOCUPA RESPONSÁVEIS
O responsável alertou igualmente para a perda gradual de referências culturais no seio das famílias, apontando factores como a redução dos momentos de convivência familiar, o distanciamento entre gerações e a desvalorização das línguas nacionais.
Na perspectiva apresentada, estes fenómenos podem enfraquecer a transmissão de conhecimentos, valores e práticas tradicionais, sobretudo quando os mais jovens deixam de ter contacto regular com os mais velhos e com as expressões culturais das suas comunidades.
A preservação da identidade cultural depende, assim, não apenas da conservação de objectos em espaços museológicos, mas também da continuidade das línguas, dos costumes, das narrativas orais e das práticas comunitárias.
PROJECTO “MUSEU NA SUA ESCOLA” APROXIMA PATRIMÓNIO DOS ESTUDANTES
No âmbito da educação patrimonial, o Museu Etnográfico do Uíge iniciou este ano a implementação do projecto “Museu na sua Escola”, concebido para levar conteúdos relacionados com a identidade cultural e a preservação do património às instituições de ensino.
A iniciativa começa com a abordagem de temas patrimoniais nas aulas práticas da disciplina de História, procurando aproximar os estudantes das referências culturais da sua região e incentivar o conhecimento da história local.
Para a concretização do projecto, o museu conta com parcerias do ISCED do Uíge, do Instituto Superior Politécnico Privado do Uíge (ISPPU) e do Colégio Zola. Está igualmente prevista a extensão da iniciativa a outras escolas.
A ligação entre museus e estabelecimentos de ensino poderá ampliar as oportunidades de aprendizagem, promover o contacto directo com o património e estimular a participação dos jovens na valorização da identidade cultural angolana.
NOTA CONCLUSIVA
O Museu Etnográfico do Uíge mantém-se como um espaço de preservação da memória histórica e cultural, combinando a conservação de colecções com actividades de investigação, educação e valorização das tradições locais.
A anunciada criação de uma sala dedicada ao poder tradicional e o desenvolvimento do projecto “Museu na sua Escola” representam oportunidades para reforçar a ligação entre património, comunidade e educação. O desafio passa por assegurar a conservação das peças, aprofundar a investigação histórica, promover a transmissão das línguas nacionais e envolver as novas gerações na continuidade das heranças culturais.
REDE NACIONAL | CULTURA, PATRIMÓNIO E IDENTIDADE
Fonte principal: Gira Notícias | Rede Girassol, com referência ao JA Online, a partir de informações atribuídas a Nelson Bunga, chefe do Departamento da Cultura, Património Histórico e Comunidades Tradicionais do Gabinete Provincial da Cultura do Uíge.
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