CLASSE | CULTURA & PERFIL LITERÁRIO | ÁFRICA EM FOCO
REDE NACIONAL | UEA — União dos Escritores Angolanos
Uma tarde de literatura, memória e reencontro africano
A literatura angolana voltou a assumir-se como espaço de diálogo, reflexão e aproximação entre diferentes geografias africanas e da diáspora.
Na tarde de 27 de Agosto, a União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, acolheu uma sessão especial de apresentação, venda e autógrafos da obra “Na Esteira do Amargo Ofício”, do escritor, poeta, crítico literário e ensaísta angolano Lopito Feijóo.
O encontro ganhou uma dimensão particular com a presença de integrantes do Sankofa Angola, Sankofa Brasil e de delegações da diáspora africana provenientes do Reino Unido, Zimbabwe, Tanzânia e Camarões.
Mais do que um lançamento literário, o momento transformou-se numa plataforma de diplomacia cultural, aproximando escritores, académicos, lideranças comunitárias, representantes culturais e membros da diáspora através da força da palavra escrita.
A literatura como exercício de consciência
Na apresentação da obra, Lopito Feijóo defendeu que a literatura deve ultrapassar o exercício meramente estético e contribuir para a formação de leitores mais críticos e atentos aos fenómenos que atravessam a sociedade.
Para o autor, a escrita mantém uma relação permanente com a observação da realidade, fazendo do escritor também um interveniente atento ao seu tempo.
O poeta considera, por isso, que não é possível separar completamente o crítico literário do crítico social, uma vez que ambos partem da observação e interpretação da realidade.
A sua concepção da literatura valoriza não apenas aquilo que está explicitamente escrito, mas também aquilo que o texto sugere nas suas entrelinhas.
“Às vezes só lemos o que está escrito, mas aquilo que não está escrito e que é sugerido pelo texto também tem grande valia.”
O “amargo ofício” de escrever
O próprio título “Na Esteira do Amargo Ofício” conduz a uma reflexão sobre as diferentes dimensões do exercício de ser escritor.
Lopito Feijóo entende a escrita como uma actividade que exige responsabilidade, disciplina e compromisso com o tempo.
Para o poeta, uma obra literária não deve estar limitada ao presente imediato. Deve procurar permanecer, dialogar com outras gerações e continuar a produzir reflexão muito depois do momento em que foi escrita.
É nessa perspectiva que manifesta o desejo de produzir textos capazes de serem lidos daqui a décadas ou mesmo séculos.
Mais de 60 poemas numa travessia literária
Publicado pela editora Embuke, do Huambo, o livro reúne mais de 60 poemas, distribuídos por três partes.
A obra foi lançada inicialmente no Huambo, em Maio deste ano, seguindo posteriormente para o Bié e chegando agora ao público de Luanda.
A trajectória editorial do livro acompanha, assim, uma circulação territorial que permite aproximar a poesia de diferentes públicos e espaços culturais dentro de Angola.
Segundo a editora, a obra propõe uma travessia intelectual marcada por ensaios, reflexões e abordagens críticas que dialogam com diferentes momentos da literatura angolana.
AC Khamba: poesia também é leitura do tempo
Na apresentação da obra, o professor e crítico literário AC Khamba destacou a dimensão social presente na poesia de Lopito Feijóo.
Para o académico, o livro ultrapassa a condição de simples colectânea de poemas e propõe uma reflexão sobre o papel da literatura e a responsabilidade de quem escreve.
AC Khamba chamou igualmente atenção para a necessidade de os novos autores conjugarem técnica e temática, mantendo uma relação mais profunda com as questões que atravessam a sociedade.
Na sua leitura, a poesia de Lopito Feijóo estabelece um diálogo permanente com factos, acontecimentos e situações do quotidiano.
Entre os exemplos apontados está a referência ao episódio da retirada da conhecida grua do Prenda, durante o mandato do então governador de Luanda, Luther Rescova, demonstrando como acontecimentos concretos podem transformar-se em matéria de criação poética e reflexão social.
Um “recado” para novas gerações
Durante a apresentação, AC Khamba deixou também uma reflexão dirigida particularmente à juventude literária.
A preocupação centra-se na necessidade de investigar, observar e compreender a realidade antes de escrever sobre ela.
A crítica apresentada pelo académico coloca a literatura perante uma responsabilidade que vai além da produção quantitativa: escrever implica construir pensamento, desenvolver linguagem e produzir significado.
Neste sentido, “Na Esteira do Amargo Ofício” surge também como um convite à leitura crítica da sociedade contemporânea.
Sankofa encontra a literatura angolana
A presença das delegações do Sankofa Angola e da diáspora africana acrescentou ao encontro uma dimensão que ultrapassou as fronteiras da literatura.
Entre as presenças estiveram Sua Majestade Rei Joshua Maponga III e Rainha Mambokadzi Aluko, do Zimbabwe; Sister Hamida Mbaga, Adelaide Tatchemo e Kwabo Mabula, ligados a comunidades e movimentos da diáspora africana e ao Sankofa no Reino Unido.
O encontro tornou-se, assim, uma oportunidade de aproximação entre diferentes experiências de africanidade, permitindo que a literatura funcionasse como uma linguagem comum entre pessoas separadas por fronteiras, mas ligadas por referências históricas, culturais e ancestrais.
Literatura como instrumento de diplomacia cultural
A sessão realizada na UEA demonstra como os espaços literários podem desempenhar um papel relevante na construção de pontes culturais.
Num contexto em que o Sankofa Angola 2026 tem procurado aproximar comunidades africanas e afrodescendentes, a literatura surge como território privilegiado para a troca de ideias, circulação de obras e reconhecimento de diferentes experiências da identidade africana.
O livro de Lopito Feijóo encontrou, nesse ambiente, leitores provenientes de diferentes geografias e tornou-se parte de uma agenda maior de reencontro cultural.
A palavra escrita, neste caso, não apenas conta histórias: aproxima pessoas, activa memórias e cria possibilidades de diálogo entre África e a sua diáspora.
A palavra que permanece
“Na Esteira do Amargo Ofício” chega a Luanda num momento particularmente simbólico para a cultura angolana.
Entre o passado, o presente e a possibilidade de diálogo com o futuro, Lopito Feijóo reafirma a literatura como espaço de pensamento e intervenção.
E numa época em que novas gerações procuram afirmar as suas próprias vozes, a obra deixa uma questão essencial: o que estamos a escrever hoje que merecerá ser lido amanhã?
Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades do escritor — transformar o seu tempo em memória, a memória em reflexão e a reflexão em legado.
FICHA EDITORIAL
Obra: Na Esteira do Amargo Ofício
Autor: Lopito Feijóo
Género: Poesia / Reflexão literária
Editora: Embuke
Apresentação em Luanda: União dos Escritores Angolanos
Data: 27 de Agosto de 2026
FONTE PRINCIPAL
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