segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Início/ARTE/“NA ESTEIRA DO AMARGO OFÍCIO”: LITERATURA ANGOLANA ENCONTRA A DIÁSPORA EM LUANDA
ARTE6 min de leitura

“NA ESTEIRA DO AMARGO OFÍCIO”: LITERATURA ANGOLANA ENCONTRA A DIÁSPORA EM LUANDA

A presença das delegações do Sankofa Angola, Sankofa Brasil e da diáspora africana acrescentou ao encontro uma dimensão que ultrapassou as fronteiras da literatura.

Redação Digipress
Redação Digipress
segunda-feira, 31 de agosto de 2026 às 11:57•Atualizado há cerca de 2 meses
Partilhar:
“NA ESTEIRA DO AMARGO OFÍCIO”: LITERATURA ANGOLANA ENCONTRA A DIÁSPORA EM LUANDA
Foto: DigiPress
“NA ESTEIRA DO AMARGO OFÍCIO”: LITERATURA ANGOLANA ENCONTRA A DIÁSPORA EM LUANDA

CLASSE | CULTURA & PERFIL LITERÁRIO | ÁFRICA EM FOCO

REDE NACIONAL | UEA — União dos Escritores Angolanos

Uma tarde de literatura, memória e reencontro africano

A literatura angolana voltou a assumir-se como espaço de diálogo, reflexão e aproximação entre diferentes geografias africanas e da diáspora.

Na tarde de 27 de Agosto, a União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, acolheu uma sessão especial de apresentação, venda e autógrafos da obra “Na Esteira do Amargo Ofício”, do escritor, poeta, crítico literário e ensaísta angolano Lopito Feijóo.

O encontro ganhou uma dimensão particular com a presença de integrantes do Sankofa Angola, Sankofa Brasil e de delegações da diáspora africana provenientes do Reino Unido, Zimbabwe, Tanzânia e Camarões.

Mais do que um lançamento literário, o momento transformou-se numa plataforma de diplomacia cultural, aproximando escritores, académicos, lideranças comunitárias, representantes culturais e membros da diáspora através da força da palavra escrita.

A literatura como exercício de consciência

Na apresentação da obra, Lopito Feijóo defendeu que a literatura deve ultrapassar o exercício meramente estético e contribuir para a formação de leitores mais críticos e atentos aos fenómenos que atravessam a sociedade.

Para o autor, a escrita mantém uma relação permanente com a observação da realidade, fazendo do escritor também um interveniente atento ao seu tempo.

O poeta considera, por isso, que não é possível separar completamente o crítico literário do crítico social, uma vez que ambos partem da observação e interpretação da realidade.

A sua concepção da literatura valoriza não apenas aquilo que está explicitamente escrito, mas também aquilo que o texto sugere nas suas entrelinhas.

“Às vezes só lemos o que está escrito, mas aquilo que não está escrito e que é sugerido pelo texto também tem grande valia.”

O “amargo ofício” de escrever

O próprio título “Na Esteira do Amargo Ofício” conduz a uma reflexão sobre as diferentes dimensões do exercício de ser escritor.

Lopito Feijóo entende a escrita como uma actividade que exige responsabilidade, disciplina e compromisso com o tempo.

Para o poeta, uma obra literária não deve estar limitada ao presente imediato. Deve procurar permanecer, dialogar com outras gerações e continuar a produzir reflexão muito depois do momento em que foi escrita.

É nessa perspectiva que manifesta o desejo de produzir textos capazes de serem lidos daqui a décadas ou mesmo séculos.

Mais de 60 poemas numa travessia literária

Publicado pela editora Embuke, do Huambo, o livro reúne mais de 60 poemas, distribuídos por três partes.

A obra foi lançada inicialmente no Huambo, em Maio deste ano, seguindo posteriormente para o Bié e chegando agora ao público de Luanda.

A trajectória editorial do livro acompanha, assim, uma circulação territorial que permite aproximar a poesia de diferentes públicos e espaços culturais dentro de Angola.

Segundo a editora, a obra propõe uma travessia intelectual marcada por ensaios, reflexões e abordagens críticas que dialogam com diferentes momentos da literatura angolana.

AC Khamba: poesia também é leitura do tempo

Na apresentação da obra, o professor e crítico literário AC Khamba destacou a dimensão social presente na poesia de Lopito Feijóo.

Para o académico, o livro ultrapassa a condição de simples colectânea de poemas e propõe uma reflexão sobre o papel da literatura e a responsabilidade de quem escreve.

AC Khamba chamou igualmente atenção para a necessidade de os novos autores conjugarem técnica e temática, mantendo uma relação mais profunda com as questões que atravessam a sociedade.

Na sua leitura, a poesia de Lopito Feijóo estabelece um diálogo permanente com factos, acontecimentos e situações do quotidiano.

Entre os exemplos apontados está a referência ao episódio da retirada da conhecida grua do Prenda, durante o mandato do então governador de Luanda, Luther Rescova, demonstrando como acontecimentos concretos podem transformar-se em matéria de criação poética e reflexão social.

Um “recado” para novas gerações

Durante a apresentação, AC Khamba deixou também uma reflexão dirigida particularmente à juventude literária.

A preocupação centra-se na necessidade de investigar, observar e compreender a realidade antes de escrever sobre ela.

A crítica apresentada pelo académico coloca a literatura perante uma responsabilidade que vai além da produção quantitativa: escrever implica construir pensamento, desenvolver linguagem e produzir significado.

Neste sentido, “Na Esteira do Amargo Ofício” surge também como um convite à leitura crítica da sociedade contemporânea.

Sankofa encontra a literatura angolana

A presença das delegações do Sankofa Angola e da diáspora africana acrescentou ao encontro uma dimensão que ultrapassou as fronteiras da literatura.

Entre as presenças estiveram Sua Majestade Rei Joshua Maponga III e Rainha Mambokadzi Aluko, do Zimbabwe; Sister Hamida Mbaga, Adelaide Tatchemo e Kwabo Mabula, ligados a comunidades e movimentos da diáspora africana e ao Sankofa no Reino Unido.

O encontro tornou-se, assim, uma oportunidade de aproximação entre diferentes experiências de africanidade, permitindo que a literatura funcionasse como uma linguagem comum entre pessoas separadas por fronteiras, mas ligadas por referências históricas, culturais e ancestrais.

Literatura como instrumento de diplomacia cultural

A sessão realizada na UEA demonstra como os espaços literários podem desempenhar um papel relevante na construção de pontes culturais.

Num contexto em que o Sankofa Angola 2026 tem procurado aproximar comunidades africanas e afrodescendentes, a literatura surge como território privilegiado para a troca de ideias, circulação de obras e reconhecimento de diferentes experiências da identidade africana.

O livro de Lopito Feijóo encontrou, nesse ambiente, leitores provenientes de diferentes geografias e tornou-se parte de uma agenda maior de reencontro cultural.

A palavra escrita, neste caso, não apenas conta histórias: aproxima pessoas, activa memórias e cria possibilidades de diálogo entre África e a sua diáspora.

A palavra que permanece

“Na Esteira do Amargo Ofício” chega a Luanda num momento particularmente simbólico para a cultura angolana.

Entre o passado, o presente e a possibilidade de diálogo com o futuro, Lopito Feijóo reafirma a literatura como espaço de pensamento e intervenção.

E numa época em que novas gerações procuram afirmar as suas próprias vozes, a obra deixa uma questão essencial: o que estamos a escrever hoje que merecerá ser lido amanhã?

Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades do escritor — transformar o seu tempo em memória, a memória em reflexão e a reflexão em legado.


FICHA EDITORIAL

Obra: Na Esteira do Amargo Ofício
Autor: Lopito Feijóo
Género: Poesia / Reflexão literária
Editora: Embuke
Apresentação em Luanda: União dos Escritores Angolanos
Data: 27 de Agosto de 2026

FONTE PRINCIPAL

REDE NACIONAL | UEA — União dos Escritores Angolanos | PRESSreader

Enquadramento: PRESSdigi | Kikalakalu Kia Díbya
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

Este artigo foi esclarecedor para si?
Redação Digipress

Redação Digipress

Redação DigiPress

PRESSdigi.ao Informação| Cultura| Imagem| Memória. Informação que documenta. Cultura que permanece. O PRESSdigi.ao é um canal editorial de informação, cultura e comunicação visual dedicado à cobertura de acontecimentos nacionais e internacionais, com especial atenção à cultura, às artes, à sociedade, à economia criativa, à identidade, à memória e à cooperação entre povos e territórios. Com uma abordagem jornalística, cultural e responsável, o PRESSdigi.ao informa, documenta e dá visibilidade a pessoas, comunidades, iniciativas, instituições e projectos que contribuem para o desenvolvimento social e cultural. A nossa produção combina jornalismo cultural, reportagem, fotografia documental, comunicação digital e narrativas multimédia, valorizando a imagem como instrumento de informação, testemunho e preservação da memória colectiva. UMA VISÃO EDITORIAL COM IDENTIDADE O PRESSdigi.ao distingue-se pela ligação entre informação, criatividade e património cultural. Através de uma perspectiva contemporânea e comprometida com a realidade angolana, africana e da diáspora, procuramos contar histórias que aproximam pessoas, valorizam saberes e fortalecem o diálogo intercultural. A nossa linha editorial acompanha, entre outras, as seguintes áreas: Cultura e artes; Jornalismo e reportagem; Economia criativa e empreendedorismo; Sociedade e desenvolvimento; Identidade, ancestralidade, património e memória; Cooperação cultural e internacional; Relações Angola–Brasil e diáspora africana; Fotografia documental e narrativa audiovisual. IMAGEM, CULTURA E MEMÓRIA Com produção editorial e apoio técnico-criativo da DIGItechnology e de parceiros, o PRESSdigi.ao desenvolve conteúdos jornalísticos, fotográficos, audiovisuais, entrevistas, documentários, transmissões em streaming, comunicação institucional e projectos de valorização cultural. A nossa missão é contribuir para uma comunicação que não se limita a noticiar o presente, mas que também regista experiências, preserva memórias e cria pontes para o futuro. A NOSSA MISSÃO Informar com responsabilidade e rigor; Valorizar a cultura, a criatividade e a diversidade; Dar visibilidade às pessoas, comunidades e iniciativas; Documentar o presente e contribuir para a preservação da memória; Promover conexões entre Angola, África, Brasil e a diáspora. DIRECÇÃO EDITORIAL KIKALAKALU KIA DÍBYA _ DALTRON COSTA Redactor-Chefe | Fotojornalista Cultural | Promotor Cultural | Artista Visual | Director da DIGItechnology IDENTIDADE EDITORIAL PRESSdigi.ao — Informação que documenta. Cultura que permanece. “Ancestralidade é continuidade com futuridade.”

Discussão da Comunidade

0 Comentários
A sua mensagem será publicada em conformidade com as regras editoriais.

Seja o primeiro a comentar este artigo.

Mais Conteúdos

Continue a Ler no DigiPress

LUÍS NUNES INAUGURA SEGUNDA EDIÇÃO DA FEIRA DO EMPREENDEDOR DE LUANDASOCIEDADE

LUÍS NUNES INAUGURA SEGUNDA EDIÇÃO DA FEIRA DO EMPREENDEDOR DE LUANDA

FEL-2026 reúne mais de 200 expositores na Marginal da Baía de Luanda, com foco na inovação, tecnologia e inteligência artificial como instrumentos de desenvolvimento empresarial e diversificação económica. O governador provincial de Luanda, Luís Manuel da Fonseca Nunes, inaugurou, na sexta-feira, 16 de Outubro, a segunda edição da Feira do Empreendedor de Luanda (FEL-2026), através […]

há cerca de 21 horas4 min de leitura
FEIRA DO EMPREENDEDOR DE LUANDA REÚNE MAIS DE 200 EXPOSITORES NA MARGINAL DA BAÍASOCIEDADE

FEIRA DO EMPREENDEDOR DE LUANDA REÚNE MAIS DE 200 EXPOSITORES NA MARGINAL DA BAÍA

A segunda edição da FEL-2026 promove oportunidades de negócio para micro, pequenas e médias empresas, com exposição de produtos e serviços, seminários de capacitação e iniciativas de aproximação entre instituições públicas, empreendedores e cidadãos. A segunda edição da Feira do Empreendedor de Luanda (FEL-2026) arrancou na manhã de sexta-feira, 16 de Outubro, na Marginal da […]

há cerca de 21 horas4 min de leitura
NOVA DIRECÇÃO DA ANIESA DEFINE PRIORIDADES PARA REFORÇAR A FISCALIZAÇÃO E A PRESENÇA NACIONALECONOMIA E NEGÓCIOS

NOVA DIRECÇÃO DA ANIESA DEFINE PRIORIDADES PARA REFORÇAR A FISCALIZAÇÃO E A PRESENÇA NACIONAL

João Fernando Quiúma assume a liderança da instituição com o compromisso de melhorar os processos de trabalho, reforçar as condições operacionais dos quadros e ampliar a actuação da autoridade em todo o território nacional. A nova direcção da Autoridade Nacional de Inspecção Económica e Segurança Alimentar (ANIESA) pretende reforçar a reputação institucional, melhorar os procedimentos […]

há 1 dia5 min de leitura