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COMUNICAÇÃO & DIÁSPORA | Mídia negra entra no centro da construção da Grande Travessia entre Brasil, Angola e África-Mundo

Redação Digipress
Redação Digipress
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A Grande Travessia apresenta-se, assim, como uma oportunidade para que a mídia negra ajude a transformar a memória do Atlântico num novo espaço de cooperação, reconhecimento, reparação e construção colectiva.
Esta perspectiva esteve em destaque em mais uma edição do Pensar Africanamente, espaço de reflexão integrado no projecto A Grande Travessia, que colocou a mídia negra no centro do debate sobre as possibilidades de aproximação entre sociedades africanas e brasileira.

Comunicação afrocentrada | A mídia negra como ponte entre continentes

A comunicação negra assume um papel estratégico na construção de novas relações entre Brasil, Angola e África-Mundo, ao contribuir para a produção de narrativas próprias, a valorização da memória africana e afrodescendente e a criação de redes permanentes de intercâmbio entre povos separados, mas ligados por uma história comum.

Esta perspectiva esteve em destaque em mais uma edição do Pensar Africanamente, espaço de reflexão integrado no projecto A Grande Travessia, que colocou a mídia negra no centro do debate sobre as possibilidades de aproximação entre sociedades africanas e brasileira.

A conversa reunirá jornalistas e comunicadores com trajectórias ligadas à luta pela igualdade racial, procurando identificar formas concretas de participação da comunicação na construção e consolidação do projecto.

A Grande Travessia | Comunicação como parte da própria missão

Mais do que divulgar actividades, a proposta apresentada defende que a comunicação deve ser compreendida como uma parte estratégica da própria Grande Travessia.

Entre os principais desafios identificados encontram-se:

  • A produção e circulação de narrativas sobre África e a diáspora;
  • O enfrentamento de estereótipos e silenciamentos históricos;
  • A ampliação do conhecimento mútuo entre sociedades africanas e brasileira;
  • A valorização das vozes negras nos meios de comunicação;
  • A criação de redes entre pessoas, instituições, iniciativas e territórios;
  • A circulação permanente de informação entre Brasil, Angola e outros países africanos.

Neste enquadramento, a mídia negra deixa de ocupar apenas o lugar de divulgação e passa a assumir uma função de construção de consciência, ligação entre comunidades e transformação das relações históricas.

Memória & reparação | Recontar a história a partir de outras vozes

A Grande Travessia está orientada pelos princípios do reencontro, reconhecimento, reparação e cooperação.

A comunicação participa desta agenda ao contribuir para a reconstrução de narrativas sobre o continente africano, a diáspora e os impactos históricos do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

A proposta procura inverter simbolicamente a rota histórica da escravização, transformando o trajecto entre Brasil e Angola num gesto de reencontro, produção de conhecimento, valorização cultural e afirmação de saberes afrocentrados.

Neste processo, a mídia negra pode desempenhar um papel essencial na recuperação de histórias, personagens, comunidades e experiências que durante muito tempo permaneceram ausentes ou sub-representadas nos espaços tradicionais de comunicação.

Brasil–Angola | Conhecimento mútuo como instrumento de aproximação

A construção de novas relações entre Brasil e África exige mais do que iniciativas pontuais.

É necessário ampliar o conhecimento mútuo sobre as realidades sociais, culturais, políticas e económicas dos dois lados do Atlântico, fortalecendo o diálogo entre comunidades e instituições.

A comunicação pode contribuir para esse objectivo através de:

  • Reportagens e documentários;
  • Entrevistas e perfis de personalidades;
  • Intercâmbio entre jornalistas;
  • Plataformas digitais de informação;
  • Produção de conteúdos culturais e educativos;
  • Cobertura de iniciativas da diáspora;
  • Arquivos fotográficos e audiovisuais;
  • Redes de comunicação entre projectos afrocentrados.

Para o PRESSdigi.ao, esta dimensão reforça a importância de uma comunicação que não se limite à cobertura de acontecimentos, mas que também documente processos, preserve memórias e estabeleça pontes duradouras entre territórios.

Roda de conversa | Jornalistas debatem compromissos e possibilidades

Participaram na roda de conversa:

  • Germana McGregor, Secretária de Género, Raça e Etnia da Federação Nacional dos Jornalistas — FENAJ;
  • Sandra Martins, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro — Cojira/RJ;
  • Marjorie Moura, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial da Bahia — Cojira/BA;
  • Fábio Soares, coordenador da Cojira/SP.

O encontro procurou identificar compromissos e possibilidades concretas de participação da mídia negra numa agenda permanente de intercâmbio, cooperação e circulação de informações entre Brasil, Angola e outros países africanos.

A mediação integra a construção colectiva da Grande Travessia e reforça a comunicação como uma ferramenta de mobilização, reconhecimento e aproximação entre povos africanos e afrodescendentes.

Sandra Martins | Jornalismo, memória e valorização das mulheres negras

Sandra Martins é jornalista profissional e mestra em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ.

Cofundadora da Cojira-Rio/SJPMRJ, Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, actuou igualmente na Comissão de Ética da organização.

Entre as suas experiências, destaca-se a curadoria da exposição “43 anos do GTAR: ‘ainda’ em busca de espaço”, realizada na Biblioteca Central do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, bem como a gestão da terceira edição do Prémio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, em 2013.

Sandra Martins integra também o grupo de biógrafas da colecção Presença e Poder, coordenada por Sandra Coleman, dedicada à valorização das trajectórias de mulheres negras brasileiras e das suas relações com família, fé, cultura, memória e afectos.

Marjorie Moura | Ética jornalística e participação institucional

Jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, com especialização em Multimeios, Marjorie Moura possui uma longa trajectória no jornalismo baiano, actuando em diferentes funções e editorias desde a década de 1990.

Ao longo da sua carreira, integrou a direcção executiva do Sindicato dos Jornalistas da Bahia durante 15 anos, tendo exercido a presidência em três gestões.

Também participou no Conselho de Comunicação da Bahia durante três mandatos.

Actualmente, exerce a função de presidente da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas — FENAJ, acrescentando ao debate da Grande Travessia uma perspectiva ligada à responsabilidade profissional, à ética e ao papel social do jornalismo.

Fábio Soares | Experiência entre rádio, televisão e assessoria

Natural de Salvador e criado no Recôncavo Baiano, Fábio Soares é coordenador da Cojira-SP desde 2021.

Formou-se em Jornalismo, em 2009, pela UNEF — Unidade de Ensino Superior de Feira de Santana, e mudou-se para São Paulo em 2012.

Durante mais de dez anos, trabalhou em redacções de rádio e televisão. Desde 2020, actua como assessor de imprensa, com foco no sector financeiro.

A sua participação representa a ligação entre diferentes experiências territoriais e profissionais da comunicação negra, contribuindo para o debate sobre redes, circulação de informação e participação institucional.

Germana McGregor | Comunicação, equidade e transformação social

Germana McGregor, Secretária de Género, Raça e Etnia da FENAJ, é jornalista com carreira desenvolvida no Ceará e especialista em Assessoria de Imprensa pelo Centro Universitário Estácio do Ceará.

Com 26 anos de experiência na comunicação, tem actuado nos segmentos sindical, cultural e nas pautas relacionadas com a equidade de género.

Integra igualmente a Comissão de Mulheres da FENAJ e já exerceu dois mandatos no Conselho Estadual de Políticas Culturais do Ceará.

A sua trajectória está marcada pela defesa dos direitos trabalhistas, da democracia, da justiça social e dos direitos das mulheres, especialmente das mulheres negras.

A participação de Germana acrescenta ao debate a compreensão da comunicação como instrumento de transformação social, defesa de direitos e construção de uma sociedade mais justa.

Redes de comunicação | Da cobertura à cooperação permanente

Um dos principais desafios colocados durante a conversa consiste em transformar a participação da mídia negra numa agenda contínua de cooperação.

Isso implica desenvolver redes que possam aproximar:

  • Jornalistas e comunicadores;
  • Meios de comunicação independentes;
  • Organizações de igualdade racial;
  • Instituições culturais e académicas;
  • Comunidades quilombolas;
  • Projectos de educação e saúde;
  • Artistas e produtores culturais;
  • Iniciativas de intercâmbio entre Brasil e África.

A criação destas redes poderá permitir maior circulação de pautas, conteúdos, profissionais e conhecimentos, contribuindo para uma visão mais ampla e plural das relações entre os territórios.

A Grande Travessia | Um projecto de reencontro atlântico

O Projecto A Grande Travessia é uma iniciativa pioneira que prevê a realização de uma travessia marítima com um navio para cerca de 2 000 passageiros, partindo do Brasil com destino a Luanda, em Angola.

A iniciativa é liderada pelo antropólogo Dagoberto José Fonseca, da Universidade Estadual Paulista — UNESP.

A rota prevista parte do Porto de Santos, com passagens pelo Rio de Janeiro e Salvador, seguindo em direcção a Luanda.

Entre os participantes previstos encontram-se educadores, profissionais da saúde, membros de comunidades quilombolas e representantes de diferentes estados brasileiros.

Rota histórica | Transformar a travessia em reparação e conhecimento

O objectivo central do projecto é inverter simbolicamente a rota histórica do tráfico atlântico de escravizados, transformando o percurso num gesto de reparação, reencontro, arte e partilha de saberes afrocentrados.

A travessia pretende estimular novas formas de relação entre Brasil, Angola e outros territórios africanos, valorizando os vínculos históricos, culturais e ancestrais que permanecem vivos nas comunidades afrodescendentes.

Neste quadro, a comunicação negra pode assumir uma função transversal, documentando a viagem, dando visibilidade às experiências dos participantes e construindo um arquivo de memória sobre o reencontro entre África e diáspora.

África-Mundo | Uma nova narrativa sobre os vínculos afrodescendentes

A Grande Travessia propõe uma visão de África que não se limita ao passado da escravização ou às narrativas de sofrimento.

O projecto procura destacar África como território de conhecimento, cultura, criação, identidade, resistência, futuro e cooperação.

A mídia negra pode contribuir para essa mudança de perspectiva ao produzir conteúdos que valorizem:

  • As culturas e línguas africanas;
  • As experiências das comunidades afrodescendentes;
  • A história das relações Brasil–África;
  • As práticas de cura, educação e organização comunitária;
  • As expressões artísticas e culturais;
  • As experiências de resistência e reconstrução;
  • As possibilidades de cooperação entre territórios.

Comunicação como território de futuro

A discussão sobre a mídia negra na Grande Travessia evidencia que a comunicação não deve ser vista apenas como suporte promocional de um projecto.

Ela pode funcionar como território de disputa de narrativas, preservação de memória, formação de consciência e construção de futuro.

Ao fortalecer redes entre jornalistas, investigadores, artistas, instituições e comunidades, a comunicação contribui para que o reencontro entre Brasil e África seja acompanhado por conhecimento, documentação e participação social.

Para o PRESSdigi.ao, a comunicação afrocentrada deve assumir o compromisso de aproximar povos, combater silenciamentos históricos e afirmar a ancestralidade como continuidade com futuridade.

A Grande Travessia apresenta-se, assim, como uma oportunidade para que a mídia negra ajude a transformar a memória do Atlântico num novo espaço de cooperação, reconhecimento, reparação e construção colectiva.

Fonte principal: REDE INTERNACIONAL | Projecto A Grande Travessia

Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

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