Pesquisa global UNESCO–ICOM revela expansão do uso da IA nos museus, mas aponta lacunas em políticas internas, capacitação, infraestrutura digital e protecção de dados
A Inteligência Artificial (IA) está a ganhar espaço no sector museológico, abrindo novas possibilidades para investigação, gestão de acervos, produção de conteúdos, mediação cultural e relacionamento com os públicos.
Uma Pesquisa Global UNESCO–ICOM sobre o uso da Inteligência Artificial, que ouviu mais de 400 museus em 90 países, apresenta um primeiro panorama internacional sobre a adopção destas tecnologias e os desafios enfrentados pelas instituições para garantir uma utilização responsável.
Os resultados mostram que a transformação digital dos museus avança de forma desigual e que a adopção tecnológica precisa de ser acompanhada por políticas de governança, capacitação profissional e princípios éticos.
IA JÁ FAZ PARTE DA REALIDADE DOS MUSEUS
Segundo os dados apresentados pela UNESCO e pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), 57% dos museus participantes utilizam Inteligência Artificial.
A utilização, contudo, ainda ocorre em muitos casos numa fase experimental ou através de iniciativas desenvolvidas directamente pelas próprias equipas das instituições.
O dado revela uma tendência de incorporação crescente da IA nas práticas museológicas, mas também evidencia a necessidade de transformar experiências isoladas em estratégias institucionais estruturadas.
ENTRE A INOVAÇÃO E A AUSÊNCIA DE ESTRATÉGIAS
Um dos principais aspectos identificados pela pesquisa é a existência de uma diferença entre a utilização efectiva da tecnologia e a criação de mecanismos institucionais para a sua governação.
Apesar da presença crescente da IA nos museus, 55% das instituições consultadas não dispõem de uma política ou estratégia interna específica para Inteligência Artificial.
Esta realidade levanta questões sobre a forma como os museus devem definir responsabilidades, estabelecer critérios para utilização de ferramentas de IA e garantir que a tecnologia esteja alinhada com as suas missões educativas, científicas e culturais.
DESIGUALDADE NO ACESSO À TECNOLOGIA
A pesquisa também identifica diferenças significativas na capacidade das instituições para adoptar ferramentas baseadas em Inteligência Artificial.
Infraestrutura digital, financiamento, capacidade técnica e disponibilidade de conhecimentos especializados constituem factores que condicionam a utilização da tecnologia.
A realidade demonstra que a transformação digital não depende apenas da existência das ferramentas, mas também da capacidade das instituições e dos profissionais para as utilizar de maneira adequada.
Para museus com menor capacidade tecnológica e financeira, o desafio passa igualmente pela criação de condições que evitem um aumento das desigualdades no acesso à inovação.
PRECISÃO, DIREITOS AUTORAIS E PROTECÇÃO DE DADOS
A expansão da IA no sector cultural traz consigo questões relacionadas com a fiabilidade da informação, direitos autorais e protecção de dados.
A pesquisa identifica estes aspectos entre as principais preocupações manifestadas pelos museus participantes.
No contexto museológico, onde colecções, documentos, imagens, arquivos e informações sobre património possuem elevado valor histórico e cultural, a utilização de sistemas de IA exige cuidados específicos quanto à origem, tratamento, armazenamento e circulação dos dados.
A precisão dos conteúdos produzidos por ferramentas de IA constitui igualmente uma questão relevante, sobretudo quando estas tecnologias são utilizadas em investigação, interpretação histórica, educação ou comunicação com o público.
ÉTICA E GOVERNANÇA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A pesquisa reúne também exemplos de instituições que procuram aplicar princípios éticos à utilização da Inteligência Artificial.
Entre as referências encontram-se a Recomendação da UNESCO sobre a Ética da Inteligência Artificial e o Código de Ética para Museus do ICOM, que oferecem princípios para orientar práticas responsáveis no sector.
A abordagem coloca a tecnologia dentro de uma perspectiva mais ampla: a IA não deve ser analisada apenas pela sua capacidade técnica, mas também pelos seus impactos sobre pessoas, comunidades, património, conhecimento e diversidade cultural.
CAPACITAÇÃO COMO ELEMENTO CENTRAL
Outro resultado destacado pela pesquisa está relacionado com a necessidade de maior formação e orientação para os profissionais dos museus.
As instituições manifestam procura por conhecimentos relacionados com Inteligência Artificial, governança de dados e direitos de propriedade intelectual.
A capacitação torna-se, assim, uma componente essencial para que os profissionais possam compreender tanto as possibilidades como os limites destas tecnologias.
Para os museus, investir em competências digitais significa também preparar equipas capazes de tomar decisões informadas sobre o uso da IA e preservar a responsabilidade institucional sobre os conteúdos e patrimónios sob sua guarda.
MUSEUS, PATRIMÓNIO E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL
A discussão sobre Inteligência Artificial assume particular importância num momento em que os museus procuram ampliar o acesso às suas colecções e aproximar diferentes públicos através de ferramentas digitais.
Digitalização de acervos, sistemas de pesquisa, tradução, acessibilidade, experiências imersivas, produção de conteúdos e novas formas de mediação são algumas das áreas em que a tecnologia pode contribuir para ampliar as possibilidades de contacto com o património.
Ao mesmo tempo, a adopção da IA exige que a inovação tecnológica permaneça articulada com a preservação da autenticidade, da memória e dos contextos culturais associados às colecções.
UMA AGENDA PARA POLÍTICAS PÚBLICAS
Os resultados da Pesquisa Global UNESCO–ICOM deverão contribuir para a elaboração de novas orientações, recomendações de políticas públicas e iniciativas de capacitação destinadas aos museus e aos Estados-membros da UNESCO.
A produção de conhecimento global sobre a utilização da IA permite identificar necessidades comuns e diferentes níveis de preparação entre as instituições.
A partir desses dados, políticas públicas e estratégias institucionais poderão contribuir para uma adopção mais responsável, inclusiva e sustentável da Inteligência Artificial no sector cultural.
NOTA CONCLUSIVA
A presença da Inteligência Artificial nos museus já constitui uma realidade internacional, mas a pesquisa UNESCO–ICOM demonstra que inovação tecnológica e responsabilidade institucional precisam avançar em conjunto.
Mais do que adoptar novas ferramentas, os museus enfrentam o desafio de construir competências, políticas internas e mecanismos de governança capazes de proteger dados, direitos autorais, património e conhecimento.
Num cenário em que a tecnologia redefine a relação entre memória, informação e público, a questão central deixa de ser apenas se os museus utilizarão Inteligência Artificial, mas como irão utilizá-la de forma ética, responsável e culturalmente significativa.
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Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
CRÉDITO DA FONTE PRINCIPAL: UNESCO Brasil
REFERÊNCIAS: UNESCO; Conselho Internacional de Museus (ICOM); Pesquisa Global UNESCO–ICOM sobre o uso da Inteligência Artificial nos museus.




