ASSASSINATOS EM EKURHULENI VOLTAM A EXPOR A DIMENSÃO DA CRISE
A recente onda de assassinatos de mulheres em Ekurhuleni, uma das principais zonas industriais e de transportes da África do Sul, voltou a chamar a atenção para os efeitos humanos, sociais e económicos da violência baseada no género.
Nos últimos dois meses, oito mulheres foram encontradas mortas na região. A vítima mais recente foi identificada como Elizabeth “Tsontso” Moselakgomo, dada como desaparecida depois de sair para a sua habitual corrida vespertina, no dia 9 de Setembro, em Rhodesfield, Kempton Park.
O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, afirmou que as autoridades policiais estão a tratar os casos como prioridade e determinou que sejam desenvolvidos todos os esforços para identificar os responsáveis e levá-los à justiça.
CUSTO ECONÓMICO ULTRAPASSA OS DANOS IMEDIATOS
Para além das perdas humanas, especialistas alertam que a violência baseada no género produz consequências económicas de longo alcance.
Um relatório da KPMG, referente ao período de 2012–2013, estimou que a violência baseada no género custava anualmente à economia sul-africana entre 28,4 mil milhões e 42,4 mil milhões de rands, valores equivalentes, à época, a cerca de 3,46 mil milhões a 5,16 mil milhões de dólares norte-americanos.
A estimativa correspondia aproximadamente a 0,9% a 1,3% do Produto Interno Bruto do país.
Os especialistas ouvidos pela Forbes África consideram, contudo, que os valores poderão estar subestimados, uma vez que os dados disponíveis são antigos e não contemplam integralmente os custos relacionados com a violência, a perda de produtividade, os cuidados de saúde e os impactos sobre as famílias.
ESTIMATIVAS PODEM NÃO REFLECTIR A DIMENSÃO REAL DA CRISE
Annabel Dennison, investigadora do Porter Institute Africa Hub, ligado ao Gordon Institute of Business Science, considera que a estimativa da KPMG deve ser interpretada como um valor conservador.
Segundo a investigadora, o estudo teve de recorrer a pressupostos sobre as taxas de prevalência da violência, devido à ausência de dados nacionais suficientemente consistentes.
Entre os custos que terão ficado excluídos ou subestimados estão:
- A dor e o sofrimento das vítimas e das famílias;
- Os efeitos de longo prazo sobre as crianças;
- A perda de receitas fiscais;
- Os custos de assistência médica privada;
- A redução da produtividade profissional;
- Os custos de substituição de trabalhadores;
- O impacto prolongado sobre as comunidades.
A investigadora refere ainda que o estudo considerou que as mulheres faltavam ao trabalho apenas cinco dias por ano, não avaliando de forma integral os efeitos da violência sobre a continuidade profissional e a produtividade.
NÚMEROS DA CRIMINALIDADE EVIDENCIAM A PRESSÃO SOBRE AS MULHERES
Entre Abril e Junho deste ano, a África do Sul registou 5.427 homicídios. Deste total, cerca de 569 vítimas eram mulheres, enquanto 1.052 mulheres sobreviveram a tentativas de homicídio.
No mesmo período, foram comunicados 9.201 casos de violação, dos quais 8.814 envolveram mulheres e crianças.
Os dados são apresentados num contexto em que investigadores e organizações sociais alertam para a existência de subnotificação, sobretudo em situações ocorridas no ambiente familiar ou envolvendo pessoas conhecidas das vítimas.
SUBNOTIFICAÇÃO DIFICULTA AVALIAÇÃO DO IMPACTO
A Dra. Thelela Ngcetane-Vika, professora sénior da Escola de Governança da Universidade de Witwatersrand, considera que o impacto da violência de género não pode ser medido apenas através dos números oficiais.
Segundo a investigadora, muitas vítimas deixam de denunciar por medo das consequências no seio da família, entre amigos ou dentro das comunidades.
O receio de represálias, o estigma social e os danos à reputação constituem alguns dos factores que podem impedir a apresentação de queixas.
A insuficiência de dados actualizados dificulta, por isso, a avaliação da verdadeira dimensão da crise e a definição de respostas públicas ajustadas à realidade.
A VIOLÊNCIA DE GÉNERO E A ECONOMIA INVISÍVEL DO CUIDADO
A socióloga Nonzuzo Mbokazi, investigadora da Universidade da Cidade do Cabo, descreve a violência baseada no género como uma crise que afecta directamente a chamada economia do cuidado.
Famílias e comunidades assumem frequentemente responsabilidades relacionadas com o apoio psicológico, o transporte, o acompanhamento médico e os cuidados diários às vítimas e aos seus dependentes.
Grande parte desse trabalho é realizado de forma não remunerada e permanece ausente dos cálculos económicos oficiais.
Para a investigadora, actualizar estimativas financeiras sem contabilizar esse trabalho invisível significa continuar a subestimar o impacto real da violência sobre a sociedade.
MEDO, ISOLAMENTO E CICLOS DE POBREZA
A violência de género produz efeitos que ultrapassam a vítima directa e atingem igualmente os familiares, as redes de apoio e as comunidades.
Entre as consequências apontadas pelos especialistas estão a perda de confiança, o medo, o isolamento social e a redução da capacidade das famílias para investir no seu próprio desenvolvimento.
O trabalho não remunerado de cuidado pode consumir tempo, energia e recursos emocionais, contribuindo para agravar situações de pobreza e exclusão.
Neste quadro, a violência baseada no género é apresentada não apenas como uma questão de segurança ou de justiça criminal, mas também como um problema de desenvolvimento social e económico.
MULHERES ENFRENTAM DESIGUALDADES NO MERCADO DE TRABALHO
A violência e o medo de sofrer violência também podem influenciar a participação das mulheres no mercado de trabalho.
De acordo com dados da Statistics South Africa, relativos ao segundo trimestre de 2026, a participação feminina na força de trabalho era de 54,9%, em comparação com 64,4% entre os homens.
A taxa de desemprego feminina situava-se em 37,5%, contra 30,3% no caso dos homens.
Annabel Dennison observa que as mulheres sul-africanas apresentam níveis de qualificação educacional iguais ou superiores aos dos homens em vários indicadores, mas essa realidade não se traduz necessariamente em resultados equivalentes no emprego e no rendimento.
As responsabilidades domésticas e de cuidado são frequentemente apontadas como uma das razões para a menor participação feminina no mercado de trabalho. No entanto, a investigadora defende que a violência e o medo dela podem constituir factores adicionais ainda pouco contabilizados.
“POTENCIAL HUMANO PERDIDO” NO CENTRO DO DEBATE
Para Nonzuzo Mbokazi, os números da violência de género revelam uma crise estrutural que afecta o tecido social e económico da África do Sul.
A violência consome recursos familiares, limita oportunidades, fragiliza comunidades e pode prender diferentes gerações em ciclos de pobreza e exclusão.
A investigadora considera que, quando os custos emocionais, sociais e comunitários não são incluídos nas análises, o impacto da violência fica reduzido a uma dimensão financeira insuficiente.
A expressão “potencial humano perdido” resume, assim, uma realidade que envolve vidas interrompidas, oportunidades profissionais comprometidas, famílias afectadas e comunidades impedidas de desenvolver plenamente as suas capacidades.
UMA CRISE QUE EXIGE RESPOSTAS MULTIDIMENSIONAIS
Os especialistas defendem que o combate à violência baseada no género exige respostas articuladas entre segurança, justiça, saúde, educação, protecção social e políticas de emprego.
A melhoria dos sistemas de denúncia, a produção de dados fiáveis, o apoio às vítimas, o reforço da prevenção e a responsabilização dos agressores constituem elementos essenciais para enfrentar o problema.
A crise também exige o reconhecimento do trabalho invisível realizado pelas famílias e comunidades, bem como dos efeitos da violência sobre a autonomia económica das mulheres.
Na África do Sul, os recentes assassinatos em Ekurhuleni voltam a colocar em evidência uma questão que ultrapassa as estatísticas criminais: o impacto da violência de género sobre a dignidade humana, a segurança colectiva e o futuro económico do país.
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Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Classe / Tema: Sociedade | Direitos Humanos | Violência de Género | Economia do Cuidado | Segurança e Desenvolvimento
Fonte principal: FORBES ÁFRICA LUSÓFONA




