Concerto “GONGA – Voz e Violão | Concerto à Meia Lua” reuniu poesia, música, juventude e referências da cultura angolana num formato acústico e intimista
REPORTAGEM DIGI — ESPECIAL CONCERTO | PRESSdigi | KIKALAKALU KIA DÍBYA
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Repórter: Gaspar Victor — Rádio Escomba
Redacção e reportagem editorial: Daltron Costa
UMA NOITE EM FORMATO DE MEIA-LUA
O anfiteatro Wiza da Fundação Arte e Cultura, na Ilha de Luanda, recebeu na noite de sexta-feira, 25 de Setembro de 2026, o concerto acústico “GONGA – VOZ E VIOLÃO | CONCERTO À MEIA LUA”, protagonizado pelo cantor e compositor angolano Vladmiro Gonga.
Realizado entre as 20h00 e as 22h00, o espectáculo propôs uma experiência musical assente na proximidade entre intérprete e público.
A disposição em formato de meia-lua procurou romper com a configuração convencional dos concertos, criando um espaço de maior contacto, diálogo e partilha. Na prática, a plateia acabou por assumir também um papel activo na construção do espectáculo, acompanhando os artistas nos coros e nas interpretações.
Mais do que espectadores, os presentes tornaram-se parte da própria dinâmica musical.
POESIA COMO PORTA DE ENTRADA
A noite teve como uma das primeiras referências o poeta e escritor Lopito Feijó, apresentado artisticamente como o “Senhor das palavras”.
Com uma trajectória de cinco décadas ligada às artes e à poesia, Feijó entrou em cena acompanhado pelo jovem instrumentista José, criando uma intervenção marcada pela palavra, pela musicalidade e pela interacção directa com o público.
Os seus poemas ocuparam o espaço acústico do anfiteatro, numa intervenção que combinou poesia, memória e presença cénica.
A participação do poeta estabeleceu, desde o início, uma das linhas centrais da proposta de Gonga: aproximar poesia, canto e violão num mesmo espaço de criação.
JUVENTUDE, LÍNGUA E MEMÓRIA BANTU
Outro momento de destaque foi protagonizado pelo jovem músico Tody, António, que interpretou um clássico em Lingala, língua bantu falada por milhões de pessoas na África Central.
A escolha dialogou com a própria dimensão identitária presente no concerto e com a pesquisa musical que atravessou o repertório apresentado por Gonga.
As primeiras canções interpretadas pelo anfitrião recuperaram igualmente referências da Música Popular Angolana (MPA), aproximando diferentes gerações e reafirmando a importância dos clássicos na construção da memória musical nacional.
Para o PRESSdigi, este diálogo entre repertório, língua, juventude e ancestralidade representa uma das dimensões relevantes da actual produção cultural angolana.
VOZ E VIOLÃO COMO EXPERIÊNCIA MUSICAL
Segundo Vladmiro Gonga, a opção pelo formato Voz e Violão surgiu da vontade de experimentar novas possibilidades para os concertos acústicos, criando condições para que poesia, canto e instrumento pudessem coexistir de forma mais orgânica.
Gonga, também executante de violão, assumiu o instrumento como extensão da própria interpretação e encontrou no palco espaço para estabelecer diálogos musicais com outros artistas.
Foi nesse contexto que surgiu a participação de Conde Martins, músico e compositor associado à tradição da trova.
GONGA E CONDE MARTINS: DUAS TRAJECTÓRIAS, UM PALCO
Um dos momentos mais expressivos da noite aconteceu quando Gonga convidou Conde Martins para uma apresentação num registo que o próprio artista revelou não explorar publicamente há cerca de duas décadas.
O encontro entre os dois músicos transformou o palco num espaço de reencontro artístico.
Conde Martins apresentou duas das suas conhecidas composições, originalmente marcadas por ritmos dançáveis, agora reinterpretadas dentro da linguagem acústica proposta por Gonga.
A experiência demonstrou como diferentes percursos e linguagens podem encontrar novos caminhos quando colocados em diálogo.
A plateia respondeu cantando e acompanhando os artistas, reforçando a ideia de que, naquele formato, existia um “terceiro artista”: o próprio público.
UMA PLATEIA QUE TAMBÉM CANTOU
Entre os momentos de maior participação colectiva estiveram os coros de temas como “Zuza Dia Matezo”, “Valsa da Zungeira” e “Avenida Urbano de Castro”, entre outras composições de Vladmiro Gonga.
As vozes da plateia contribuíram para recuperar a dimensão comunitária da música, transformando o concerto num exercício de memória partilhada.
A resposta do público ajudou ainda a confirmar a eficácia do formato acústico e intimista escolhido para a noite.
KAYAYA JÚNIOR E A MEMÓRIA DE QUEM ABRIU CAMINHOS
Entre conversas, recordações e intervenções espontâneas, o concerto também reservou um momento de reconhecimento ao produtor Kayaya Júnior.
Segundo os artistas, ao saberem da sua presença entre o público, Gonga e Conde fizeram questão de reconhecer o seu contributo para as respectivas trajectórias.
O momento foi acompanhado pela referência à obra literária “Uma Sassassa do Kayaya — O Outro Lado do Nosso Olhar”, de autoria de Kayaya Júnior e do artista plástico Sassassa.
A homenagem recuperou uma dimensão frequentemente pouco documentada na história cultural: o papel dos produtores e agentes que, ao longo de décadas, criaram oportunidades para que novos artistas pudessem chegar ao público.
LOPITO FEIJÓ: MEMÓRIA, TRANSMISSÃO E CONTINUIDADE
Com cinco décadas de percurso artístico, Lopito Feijó assumiu também uma posição simbólica durante a noite.
Ao dirigir-se aos dois artistas mais jovens e á Kayaya, por sua mais recente obra como “confrades”, expressão que costuma utilizar para se referir aos seus companheiros das artes, o poeta associou a sua intervenção à ideia de transmissão entre gerações.
A sua presença funcionou, assim, não apenas como participação poética, mas como uma espécie de passagem simbólica de testemunho, “bastão” entre diferentes momentos da criação artística angolana.
A poesia, nesse contexto, apareceu como ferramenta de preservação da angolanidade, mas também como possibilidade de a projectar para o futuro.
MASSEMBAJAZZ, UAZEKELE E A BUSCA POR NOVAS FORMAS
O concerto foi igualmente apresentado como uma celebração das sonoridades associadas ao MassembaJazz e ao Uazekele, incorporando diferentes referências da música angolana numa experiência acústica referente as obras de Gonga.
A proposta procurou demonstrar que a preservação da tradição não significa necessariamente repetir formatos.
Pelo contrário, a reinvenção dos repertórios, a aproximação entre gerações e a experimentação de novas configurações cénicas podem constituir formas de manter vivas as referências culturais.
FUNDAÇÃO ARTE E CULTURA: UM ESPAÇO DE ACOLHIMENTO
O olhar do PRESSdigi também se voltou para a Fundação Arte e Cultura, enquanto espaço de acolhimento e promoção de iniciativas culturais.
A instituição esteve representada pelo seu vice-director, Xavier Narciso, pela directora de Comunicação, Antónia Paulo, e por uma equipa jovens, técnica multidisciplinar envolvida na realização do espectáculo.
O anfiteatro Wiza reafirmou-se, nesta ocasião, como um espaço de encontro entre artistas, público, produtores e diferentes gerações ligadas à cultura angolana.
CULTURA COMO CELEIRO DE TALENTOS
A noite de “GONGA – Voz e Violão” revelou-se, acima de tudo, como um exercício de convivência artística.
Poesia, música, juventude, memória, língua e tradição cruzaram-se num mesmo palco, mostrando a possibilidade de criar novas experiências a partir de referências culturais já existentes.
A presença de artistas de diferentes gerações, incluindo a breve apresentação de um grupo coral infantil, alunos da própria instituição permitiu ainda observar uma cadeia de transmissão cultural em que a experiência dos mais antigos encontra a energia e a experimentação dos mais jovens.
É nesse território que espaços culturais como a Fundação Arte e Cultura assumem relevância: inspirar, plantar, cultivar, promover, capacitar e preservar talentos e referências.
O OLHAR PRESSDIGI: DOCUMENTAR PARA CRIAR REFERÊNCIAS
Para o PRESSdigi, acompanhar manifestações desta natureza significa também documentar a cultura a partir de dentro, valorizando os seus protagonistas, os espaços de criação e as relações humanas que sustentam a produção artística.
A reportagem integra o compromisso editorial de acompanhar a cultura angolana para além dos grandes palcos, registando encontros, trajectórias, linguagens e processos de transmissão entre gerações.
Nesta perspectiva, o concerto de Vladmiro Gonga não foi apenas uma apresentação musical. Foi também um espaço de encontro entre memória e futuridade, entre repertório e reinvenção, entre artistas e comunidade.
NOTA CONCLUSIVA
“GONGA – VOZ E VIOLÃO | CONCERTO À MEIA LUA” apresentou uma experiência acústica construída sobre a proximidade.
No palco, Vladmiro Gonga encontrou a poesia de Lopito Feijó, a sonoridade de Conde Martins, a presença da nova geração representada por Tody e José e, sobretudo, uma plateia que participou activamente da construção musical.
A experiência reafirmou a importância de criar espaços onde a música, a poesia e a memória cultural possam dialogar sem perder a capacidade de se renovar.
É também nesse sentido que o PRESSdigi continuará a documentar a cultura angolana, procurando transformar acontecimentos culturais em referências para as novas gerações.
“Etu mudietu” — nós entre nós.
CRÉDITOS:
Redacção/olhar editorial: Daltron Costa
Reportagem Especial: PRESSdigi | Kikalakalu Kia DíbyA
Reporter: Gaspar Victor — Rádio Escomba
Local: Anfiteatro Wiza — Fundação Arte e Cultura, Ilha de Luanda
Evento: “GONGA – Voz e Violão | Concerto à Meia Lua”
Artista: Vladmiro Gonga















